Erguendo diques de coragem como Luther King e Tia Nan

Fala, Mestre!

Edição N.º 12 - Janeiro de 2022

Fala, Mestre!

Martin Luther King foi um líder icônico. Tinha uma dedicação inabalável pela luta dos direitos civis nos Estados Unidos e, até hoje, inspira pessoas do mundo inteiro a serem valentes, verdadeiras e confiantes de que as circunstâncias, os humanos e as nações podem, sim, mudar para melhor. Com certeza, se ainda estivesse vivo e conhecesse de perto a escola que leva seu nome, no município de Três Rios, no Rio de Janeiro, a Escola Estadual Municipalizada Luther King, o ativista norte-americano seria amigo da professora Nancí Rocha de Brito, a Tia Nan.


“Hoje, eu desejo que a gente possa honrar as pessoas que se foram, que a gente possa deixar nossa marca e ouvir as histórias que estão por aqui. Porque a gente perdeu muita história nessa pandemia”, diz Nancí, nossa estrela do Fala Mestre deste mês — que, assim como Luther King, também tem sonhos que contam com o espírito de coletividade.

 

A professora, que perdeu o padrasto e o irmão para a covid-19, fala a partir de um contexto de luto, mas também de muita luta. “Meu padrasto tinha 90 anos e tinha ainda tanto para falar, para compartilhar com a gente, e a gente perdeu isso”, lamenta. “Sou filha da Dona Zeza e ela é conhecida por todo mundo aqui. Espero que a gente possa honrar as pessoas e as histórias que se foram, e que possamos ouvir e dar espaço para a fala de todos que ainda estão aqui e têm muito o que dizer”, reflete.


Já aposentada pelo INSS, Nancí segue trabalhando como professora, acumula 32 anos de profissão e, hoje, é responsável pela alfabetização dos pequenos na escola em Três Rios. Esposa de um profissional da saúde, a docente é mãe de trigêmeos adultos e faz parte da comissão do Coletivo Professoras e Professores do Brasil.





Sempre criativa, a professora fez uma série de atividades com as crianças durante a pandemia, criou um grupo de transmissão para auxiliar os pais dos seus alunos no período de isolamento e, reconhecida pela comunidade escolar, chegou a ser homenageada pelos pais dos estudantes ao fim do ano. “A gente conseguiu fazer um encontro presencial e uma senhora tomou a palavra. Eu não sabia, foi uma surpresa de verdade! Ela me homenageou e eu recebi umas lembrancinhas dos pais, foi muito bonito”, lembra a professora. 





Segundo ela, o início da pandemia foi o momento mais difícil, já que teve que lidar com as perdas na família e o adoecimento da própria mãe. “Ia ao psicólogo e só chorava”, conta. A professora hoje trata de uma ansiedade com auxílio médico e, em sua casa, cuida do marido, que está afastado do trabalho para tratar uma depressão. Durante a pandemia, viu pais de alunos indo buscar apostilas de exercícios sem usar máscara e achou importante tomar uma iniciativa.


“Tive que fazer um trabalho de formiguinha com as mães. Fiz um grupo de transmissão, no qual eu mandava muitas informações, vídeos, orientações, para que elas soubessem a gravidade da situação… E adiantou! Elas melhoraram, agradeceram e gostaram muito da nossa ajuda”, conta a professora. “No retorno às aulas presenciais, em agosto, em geral, os alunos obedeceram muito os protocolos. Só pediram para tirar a máscara em alguns momentos, mas ficaram bem comportados”, relata.


“No início, eles só queriam falar o tempo todo. Falar, falar, falar. Acho que tinham acumulado muito, e estavam precisando disso”, lembra a professora. “Mas não senti eles depressivos, ansiosos… Só um aluno que ficou poucos dias com a gente e ele não voltava mais. Daí, eu procurei a mãe dele e ela me disse que ele não havia se acostumado com a nova rotina da escola, que achou que iria ver uma escola como era antes e não tem como ser agora, né? As coisas mudaram”, reflete.




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