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Pós-graduanda em Linguística, doméstica publica livro com dinheiro que ganhou recolhendo latinhas

Fala, Mestre!

Edição N.º 20 - Setembro de 2022

Quando pensamos em professores e nos desafios que esses profissionais enfrentam no dia a dia, logo nos referimos aos obstáculos que existem e que muitos de nós lidamos diariamente, na escola, com estudantes e com as pressões e demandas da nossa profissão. Contudo, o que todos nós sabemos — e poucos de nós ressaltamos — é que os desafios da docência começam muito antes de ocuparmos a posição de facilitadores em sala de aula. Afinal, o primeiro obstáculo, após a graduação, é conquistar a oportunidade de lecionar. Oportunidade essa que ainda não chegou a todos aqueles que escolheram a nossa profissão.

Natural do município de Currais, no sul do Piauí, Darcy Santos se apresentou à redação da Revista Fique Bem como compositora, escritora e mãe de um adolescente que acaba de completar 15 anos de idade. No entanto, ela é também uma mulher que, aos 36 anos, formada em Letras e cursando uma pós-graduação em Linguística Aplicada, sonha e batalha pela oportunidade de lecionar para uma sala de estudantes. Atualmente, Darcy trabalha como empregada doméstica em Valparaíso de Goiás, no Entorno do Distrito Federal.

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Darcy é a estrela do Fala, Mestre! deste mês porque, além de tudo, ela também é pura inspiração. Com poucos recursos financeiros e motivada pelo sonho de ver um dos seus livros publicados, a escritora não mediu esforços e, no auge da pandemia, dividiu a sua rotina entre o serviço como empregada doméstica e o trabalho de recolher e reciclar latinhas  -  tudo para ver a sua primeira obra ser publicada. O livro? Uma fábula voltada ao público infantil, que fala sobre um assunto muito sério e que atravessa a autora: o preconceito e a exclusão social.  

“Eu sempre tive vontade de publicar livros, mas era uma realidade muito distante da minha vida. Durante a pandemia, eu encontrei uma editora em São Paulo que trabalhava com autores independentes. O problema é que me faltava o recurso financeiro. Então, eu tive a ideia de partir para a reciclagem”, conta Darcy. “Durante seis meses, de sexta a domingo, eu fazia reciclagem de latinha nas ruas. Fielmente, todo o fim de semana. Eu fui muito criticada, inclusive pela minha família, mas segui firme no meu objetivo”, revela a escritora.

Em seis meses, Darcy acumulou um pouco mais de 130 kg de latinhas recolhidas e, com o dinheiro que conseguiu com elas, realizou o seu sonho de publicar o seu primeiro livro. A obra “O lobo solitário” conta a história de Pélik, um lobo que vivia perambulando sozinho pelas florestas e vales.

“Quis fugir da lógica das histórias dos lobos. Em todas as histórias, o lobo é o vilão, a representação do mal. Só que, hoje em dia, a gente vê muitas pessoas que são julgadas, seja pela sua aparência, pelo seu gênero, por alguma ideologia, sem que os outros saibam o que há por dentro, qual é o sentimento da pessoa. Eu fiz esse caminho inverso e foi assim que eu criei o meu lobinho”, conta a autora, com um sorriso tímido no rosto.

Enquanto colhia suas latinhas em Valparaíso e em Brasília, Darcy usou uma camiseta personalizada, que trazia sua mensagem a quem trombasse com ela. A veste, idealizada por ela, que trazia as frases “Quem tem sonhos busca alternativas para realizá-los” e “Reciclando latinhas para publicar um livro” acabou sendo um presente, e acompanhou a piauiense em todos os dias de coleta. “Por sorte, quando eu cheguei no local que fazia a personalização da camiseta, acabei ganhando a camiseta, foi uma benção”, lembra. “Foi um trabalho diferente, mas valeu a pena pela emoção de ver o meu livro pronto”.

Escrever para se libertar de traumas 
Quem conhece Darcy percebe o brilho que invade seus olhos, quando ela fala sobre a sua obra. Além do livro sobre o lobo Pélik, a autora tem mais histórias prontas, esperando o momento certo para serem publicadas. “Eu tenho mais quatro livros prontos. Só não tenho o quinto, porque estou sem um computador no momento”, ressalta ela. “De qualquer forma, agora prefiro trabalhar na divulgação desse primeiro livro, ao invés de publicar os demais, porque a publicação requer um poder aquisitivo que hoje eu não tenho”, diz.

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Segundo a autora, o livro “O lobo solitário” tem ganhado espaço, inclusive, entre professores. “No nordeste, estão me abraçando mais. Há conversas, inclusive, sobre fazer a aquisição do meu livro para professores trabalharem o conteúdo em sala de aula. Vai ser muito bom se isso acontecer!”, exclama animada. A escritora espera ainda que, em algum momento, sua história seja encenada em uma peça de teatro, e revela com um sorriso largo: “Esse vai ser um momento muito único na minha vida”.

No entanto, a história de Darcy com a escrita começou de uma forma bastante dolorosa, quando ela tinha apenas 15 anos. Filha mais velha de quatro irmãos, a piauiense saiu da casa dos pais aos 12 anos, logo após a morte do seu pai, para ganhar algum sustento e ajudar sua mãe na criação dos seus irmãos. Trabalhando com serviços domésticos desde cedo, aos 15 anos, Darcy foi vítima de um abuso sexual, cometido pelo seu patrão na época. “Até me arrepia lembrar. Eu não tinha a consciência, não sabia para quem pedir qualquer ajuda, então tive a iniciativa de conversar comigo mesma. Decidi começar a escrever”, lembra.

 

Nessa época, Darcy produziu seu primeiro texto: “Marina, a inocência perdida pelos olhos de uma criança”, uma obra que relata o abuso que ela mesma havia sofrido. “Foi meu primeiro texto, e aí eu vi que eu tinha habilidades para seguir escrevendo, era uma forma de me sentir mais leve, de poder fugir da minha realidade, de viver com a ajuda da minha imaginação”, reflete ela.

Doze anos depois, na posição de estudante de Letras, Darcy compartilhou esse texto com um professor da faculdade. Ele, com muito bom tato, percebeu que havia ali o relato de uma experiência de abuso vivenciada pela autora. O docente conversou com Darcy que, finalmente, se abriu e se sentiu acolhida, e hoje fala abertamente sobre o assunto. “Hoje eu falo: não se calem. Qualquer pessoa, seja lá qual for a sua idade, não se cale. Falar sobre o que me aconteceu me ajudou a viver com muito mais leveza”, confessa.

Inspirando e lutando por uma oportunidade

Também durante a seu período de graduação, Darcy viveu o que ela chama de “profissionalmente, o momento mais feliz da sua vida”: o estágio de dois anos e meio que fez em uma escola da Rede Salesiana, no centro de Brasília. Com carinho, lembra da sala de aula e de como era feliz trabalhando com educação, uma das suas paixões, ao lado da literatura. Por isso, tem buscado incessantemente por novas oportunidades para atuar como professora. 

“Tem gente que fala assim: você é formada, por que que você fala que trabalha de doméstica? Porque é de onde eu tiro a fonte de renda para poder criar meu filho”, afirma Darcy. “Eu tenho faculdade e estou fazendo pós-graduação. Mas eu não trabalho ainda na minha área, onde eu me formei. E eu tenho um filho em casa. Eu não posso ficar em casa, estudando, parada, esperando a oportunidade surgir. Trabalho como doméstica e, enquanto isso, sigo estudando e acreditando que a minha hora vai chegar”, diz a nossa convidada.

Depois que seu primeiro livro foi publicado e a sua história chegou a ser contada em diferentes veículos de comunicação, Darcy Santos percebeu que poderia inspirar muitas pessoas a correrem atrás dos seus sonhos. “Muita gente se sentiu motivada e acabou me agradecendo. Eu achei isso muito gratificante, por saber que, através da minha iniciativa, eu acabei motivando os outros”, aponta. “Sempre falo que, para te desmotivar, vão ter vários. Então a gente tem que seguir acreditando e abraçando os nossos objetivos”, ressalta. 

“As pessoas precisam acreditar também e não desistir da leitura. Hoje em dia, com tanta tecnologia, as crianças, os jovens e até mesmo os adultos estão deixando a leitura de lado. Por isso, eu peço aos leitores da revista Fique Bem: leiam para as crianças, incentivem as crianças a lerem. A literatura é um universo muito grande e a gente precisa estar dentro dele”, encerra a nossa querida escritora e futura professora.

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Pós-graduanda em Linguística, doméstica publica livro após recolher latinhas no DF