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Perrengue no presencial?
Como lidar com a ressocialização após isolamento

Hora do Café

Edição N.º 14 - Março de 2022

Depois de quase dois anos de aulas pelo Zoom, reuniões pelo Google Meets, aniversários pelo WhatsApp e uma vida totalmente remota, eis que estamos — em alguma proporção — retomando o nosso contato físico com o mundo para fora das nossas casas. Voltar à rotina presencial pode gerar sentimentos mistos de alegria, nervosismo, preocupação… e, algumas vezes, podemos sentir que estamos enferrujados no que se refere às relações humanas. Será que, em dois anos, desacostumamos a sermos seres sociais?

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"Precisamos engatar a marcha", afirma a psiquiatra

“Se por um lado encontramos pessoas muito felizes e entusiasmadas por poderem voltar ao convívio e trocar experiências, por outro lado vemos pessoas inseguras, com medo de julgamentos — seja com a sua aparência ou com o seu rendimento — , ou até mesmo sentindo pouca energia para a volta de uma rotina mais cansativa, com deslocamentos”, afirma a psiquiatra Loraine Martins, que é mestre em Tecnologias e Atenção à Saúde. “Quanto maior foi o grau do isolamento, maiores têm sido as dificuldades na readaptação, principalmente para os jovens, que perderam parte importante de seu desenvolvimento social no isolamento”, continua.

E qual é o papel do professor no processo de ressocialização dos estudantes nesse retorno às aulas presenciais? Mais uma vez, a palavra mágica é acolhimento. “Dentro do possível, o professor deve se propor a conhecer a individualidade dos alunos, e então criar espaços menores de troca, com três ou quatro alunos que tenham afinidade, dar espaço para aqueles mais desenvoltos, dar tempo para aqueles mais retraídos”, diz a especialista.

“Dialogar com as famílias, e com profissionais de outras áreas que possam estar juntos com essas crianças e adolescentes, é essencial. Além disso, é preciso entender que não há aprendizado acadêmico sem mínima estabilidade emocional. O que quero dizer é que, mesmo entendendo que temos muitos conteúdos defasados e pouco tempo para ensiná-los, a prioridade nesse retorno é olhar, acolher e direcionar as questões emocionais dos alunos”, ressalta Loraine.

Segundo a psiquiatra, para quem tinha uma boa desenvoltura social e não sofria de nenhuma condição psíquica antes da pandemia, o retorno ao mundo presencial tende a ser mais fácil. A situação pode ser mais complicada e o desafio maior para quem já tinha algum tipo de dificuldade ou para aqueles que, durante o isolamento, estavam em fase de desenvolvimento das competências sociais. Ou seja, o sinal deve ficar amarelo para quem viveu a primeira infância, o início da adolescência ou o começo da vida adulta em isolamento social desde 2020, pois há risco de adoecimentos consequentes dessa dificuldade, como o desenvolvimento de um transtorno de ansiedade e até mesmo de uma depressão.

“Duas estratégias fundamentais para direcionar essa energia represada por tanto tempo são a atividade física e a conexão com a natureza”, diz Loraine. “Além disso, em casos em que os estudantes apresentarem maior sensibilidade ou propensão a brigas, a intermediação dos conflitos na escola, de uma forma aberta, pode trazer grande aprendizado para a vida dos alunos”, sugere a especialista, que também pontua a meditação e uma boa rotina de sono como meios para promover um ambiente de harmonia, seja em casa ou nas escolas.

Um alerta também deve ser dado àqueles que acreditam que os relacionamentos virtuais são equivalentes aos presenciais. “O mundo virtual deturpa muito a comunicação interpessoal, pois cria uma falsa impressão de pertencimento, trocas e diálogos acolhedores, além de uma falsa liberdade para o ódio e a combatividade. Já o relacionar-se corpo a corpo requer uma série de habilidades, de desafios, de enfrentamentos que são fundamentais para nosso amadurecimento, nossa saúde e bem-estar”, avalia a psiquiatra.

“Minha aposta é que nossos círculos sociais reais, com pessoas de carne e osso, serão mais restritos, pois passamos a escolher estar próximos de pessoas que realmente nos fazem bem, com quem temos um convívio enriquecedor, mas também vivemos uma explosão de conectividade que vai conformar uma rede mais ampla de relacionamentos”, diz Loraine. “O estado de ansiedade com os reencontros pode nos deixar retraídos e desconfortáveis e, nesse momento, podemos travar ao dialogar principalmente em público. Mas nosso cérebro não foi resetado em 2 anos (risos). Só precisamos ligar o motor, engatar a marcha e permitir a aceleração”, conclui.

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