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Fenômenos da psicologia podem ser desencadeados de maneira coletiva?

Hora do Café

Edição N.º 16 - Maio de 2022

No início do mês de abril, todos nós fomos surpreendidos por uma situação atípica que aconteceu na Escola de Referência em Ensino Médio (Erem) Ageu Magalhães, no Recife. No episódio, que ganhou grande repercussão na imprensa, 26 alunos sofreram, em um mesmo instante, sintomas de uma crise de ansiedade — como falta de ar, tremor e muito choro. As cenas que foram divulgadas na internet são desesperadoras. Diante do que aconteceu naquela escola, e depois de dois anos de isolamento em casa, precisamos falar sobre a ansiedade e sobre como ela pode afetar um grupo inteiro de pessoas de uma só vez. Você já tinha ouvido falar em situações parecidas?

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Não hesite em buscar um profissional, reforça Thays

Para nos ensinar sobre o assunto, chamamos a psiquiatra e psicoterapeuta Thays Mello. Segundo a nossa querida amiga — que já participou de uma Live Fique Bem no nosso canal no Youtube — o número de casos de sofrimento mental dentro das escolas, assim como na população em geral, aumentou muito nos últimos anos e continua em níveis altos após o retorno às aulas presenciais. Além disso, para quem lida com adolescentes, o alerta é ainda maior: são eles os mais vulneráveis a sofrer com essas questões, inclusive de forma coletiva.

“Isso se deve, entre outros fatores, ao próprio padrão de comportamento que é natural do adolescente”, conta a especialista. “Na infância, a criança tende a ser a sua própria referência, como se tudo o que acontecesse à sua volta se referisse a ela mesma. Na adolescência, a situação se inverte. Tudo o que acontece à nossa volta diz respeito ao grupo. Inclusive, é por isso que passamos por um momento de insegurança, por uma vontade de sermos inseridos aos grupos, um anseio em participar da turma. Na idade adulta, a nossa tendência é a de equilibrar essas duas visões de mundo e, assim, chegarmos a um equilíbrio social”, explica Thays.

Assim, de acordo com a psiquiatra, podemos dizer que a adolescência é o momento da nossa vida onde vivenciamos o auge da influência externa. Logo, é um dos momentos em que somos mais vulneráveis e viver fenômenos da psicologia desencadeados de maneira coletiva, como aconteceu no Recife.

 

Como lidar com situações de ansiedade na escola

 

O nosso papel como professores, no entanto, é o de transformar a nossa sala de aula em ambientes de acolhimento. Agora que estamos em tempos de provas e de entregas de trabalho nas escolas, precisamos também pensar em como gerenciar e evitar situações de ansiedade entre os alunos. Umas das soluções mais efetivas é o trabalho engajado da escola com as famílias, o letramento afetivo e, assim, a criação de um ambiente seguro para os estudantes. “É preciso que os alunos se sintam confortáveis e à vontade para falarem sobre as emoções vividas com a volta às aulas” conta Thays. “A elaboração de emoções difíceis, vem através da expressão de afetos”, conclui.

 

Falando em expressão, você sabe como uma crise de ansiedade pode ser expressada? Apesar de muito falarmos sobre o assunto — principalmente na nossa comunidade de professores que se preocupam com a saúde mental — , muitos de nós não sabe identificar um momento de crise. É claro que apenas um profissional da saúde pode fazer um diagnóstico adequado, mas é importante nos atentarmos a alguns sinais sintomáticos.

 

“A crise de ansiedade é caracterizada por um sensação abrupta, aguda, de medo ou desconforto intensos e que pode vir acompanhada de palpitações, sudorese, medo de morrer ou de enlouquecer, sensação de sufocamento, falta de ar, dor no peito, náusea, tontura, calafrio ou dormência”, explica a psiquiatra. “Geralmente, a crise alcança pico em alguns minutos e, neste momento, deve-se buscar serviço de urgência hospitalar para avaliação clínica e conduta médica, especialmente para esclarecimento diagnóstico e encaminhamento para tratamento ambulatorial, quando for o caso”, reforça.

 

Se você sentir tais sintomas, acreditar que está em crise, ou tiver que lidar com alguém em crise, entenda que o melhor caminho para que ela passe é o acolhimento. “É preciso tentar manter a tranquilidade para oferecer ajuda e tentar retomar um ritmo tranquilo de respiração daquele que está sofrendo”, diz Thays.

 

A profissional dita o passo a passo: “A primeira dica é ir para um lugar mais calmo, discretamente, para reduzir a sensação de exposição da pessoa. Na sequência, temos que entender se a pessoa já está em tratamento e se tem alguma medicação disponível para casos de crise. É muito importante evitar falas que minimizem o sofrimento, como as expressões ‘isso é da sua cabeça’ ou o famoso ‘não é nada’. Por fim, em um momento oportuno, quando a pessoa estiver melhor, e se ela já não estiver em tratamento, é importante aconselhá-la a busca por um profissional de saúde mental. A gente sabe que nem sempre esse profissional é acessível, mas o próprio médico clínico já pode ajudar”.

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