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Por uma escola pública que projete e fomente uma educação "Fora da Caixa"

Fala Mestre!

Edição N.º 14 - Março de 2022

Quais são as diferentes expectativas depositadas na escola pública e na escola particular? Muitos, quando pensam em um ensino particular, presumem uma qualidade maior, regras mais rígidas, alunos uniformizados — e, em alguns casos, quase que uma relação de prestador de serviço dos professores para com os pais dos estudantes. Em contraposição, não é raro que os termos evasão escolar, violência e baixa qualidade sejam associados à escola pública. Mas será que a realidade é sempre assim? Ou melhor, será que faz sentido esperar que a escola pública tenha o desejo de se encaixar em um mesmo modelo de expectativa, e ser uma alternativa barata à escola particular, copiando uma mesma dinâmica, mas com menos recursos? 

Essa é uma das questões que intrigam e que incomodam a professora Joice Lamb, escolhida como Educadora do Ano na edição de 2019 do Prêmio Educador Nota 10. Formada em Letras, ela é coordenadora pedagógica da EMEF Prof.ª Adolfina J.M. Diefenthäler, em Novo Hamburgo (RS), desde 2012, e se posiciona como defensora da escola pública.

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Joice é coordenadora e defensora da escola pública

“Às vezes, as pessoas querem pegar uma certa dinâmica, que pode funcionar bem na escola particular, e passá-la para a escola pública, como se o ensino público tivesse que preparar os estudantes da mesma forma como eles estão sendo preparados na escola particular. Senão, o ensino público não seria um ensino de qualidade. O que a gente diz é que isso não é necessário. A gente pode fazer pelo outro lado”, afirma a nossa estrela do Fala, Mestre! deste mês.

“A gente pode trabalhar o acolhimento dessas crianças, a gente pode usar o tempo da aula para fazer esse acolhimento, para evitar esse sofrimento que eles têm no primeiro exame. A gente trabalha com muita brincadeira, com muita discussão, e a gente acredita que consegue chegar a um mesmo resultado, não precisando trabalhar com uma ótica mais mercantilista”, afirma a coordenadora, responsável pelas turmas do sexto ao nono ano.

Defensora da ideia de uma escola pública democrática e inclusiva, Joice tem até um canal no Youtube para discutir o tema. “A gente trabalha com gestão democrática, assembleias, projetos de iniciação científica... Vários projetos voltados a uma escola pública que se constrói, não uma escola pública que imita a escola particular”, ressalta. 

Neste sentido, Joice apresentou ao Fique Bem um dos seus projetos favoritos, que, na escola onde trabalha, estimula os alunos a se verem e se reconhecerem como sujeitos parte de um todo. O Projeto Fora da Caixa funciona assim: a escola reúne todos os alunos da educação infantil ao 5º ano do fundamental e os divide em diferentes grupos, sendo que cada grupo passa a ter representantes de todas as idades e um espaço físico para chamar de seu. 

Então, uma vez por semana, no mesmo horário, todas essas classes envolvidas param as aulas e os alunos vão para a sala dos seus respectivos grupos. Lá, eles participam de uma oficina e depois retornam às suas respectivas classes. A ideia é bem simples e fácil de ser executada, mas o resultado é transformador. 

“Então, por exemplo, uma criança que entra na escola aos quatro anos, quando ela chegar ao 5º do ensino fundamental, ela já fez parte de sete grupos diferentes, no mínimo. Então, ela já conheceu uma enormidade de crianças diferentes e já se sentiu capaz de maneiras diferentes dentro destes grupos. Ela experimentou ser a mais nova, ser a do meio e ser a mais velha do grupo, e essas relações vão inspirar um novo reconhecimento do eu e dos outros”, afirma Joice. “Isso faz com que, no recreio, todos possam conviver juntos sem se atropelar. Que se conheçam, que se respeitem, que se ajudem”, continua.

 

E os professores nessa dinâmica? Cada professor que participa do Fora da Caixa fica responsável por criar uma única oficina que será aplicada repetidas vezes por ele, no decorrer do ano, em todos os grupos. Os temas são livres e o projeto já contou com aulas de culinária, dança, teatro, robótica, dobradura, jogos criados pelos professores… Enfim, atividades que possam ser aplicadas com alunos de todas essas idades. Além disso, é sempre uma surpresa para os alunos qual será o professor e qual será a oficina do dia.

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Joice foi a Educadora do Ano na edição de 2019 do Prêmio Educador Nota 10

Trabalho coletivo e gestão democrática

Para a coordenadora, o trabalho coletivo é o primeiro passo para uma educação de qualidade. “A escola é uma coisa única, não pode ser um monte de sala de aula e um monte de turma, é um lugar que precisa ser integrado, coletivo, todo mundo junto. As pessoas deveriam pensar na gestão democrática como um caminho para uma escola pública de qualidade. O trabalho coletivo facilita a vida de todo mundo, ele não dá mais trabalho para o professor, ele tira esse peso”, afirma Joice. 

Inclusive, sabe aquele história de que cada professor tem os seus alunos? Estudantes sobre os quais o professor se responsabiliza e toma decisões individuais durante o ano todo? Não é bem assim que acontece na EMEF Adolfina. Preocupada em combater a solidão do professor —  diferenciando-a de sua autonomia —  a coordenação da escola de Nova Hamburgo estimula um acompanhamento conjunto, com reuniões entre professores de todas as séries, que conversam entre si sobre os alunos. Assim, o caminho de aprendizado dos estudantes é avaliado como um todo, sem que esses alunos sejam encarados como desafios pessoais e anuais de um determinado professor. 

 

Os últimos dois anos, é claro, foram desafiadores. Durante a pandemia, o Projeto Fora da Caixa teve que ser interrompido, algumas iniciativas foram adaptadas e outras, novas, foram desenvolvidas. A anual Feira de Iniciação Científica (FIC), por exemplo, passou a ser transmitida online, se tornando a FICemCasa — um nome oportuno. Além disso, 25 aulas públicas virtuais, repletas de conteúdo informativo e destinadas a todas as séries, foram produzidas durante o período de isolamento social. Em adição, nas tardes de todas as sexta-feiras, foram feitos recreios culturais virtuais, momentos de descontração que muito ajudaram a manter a escola unida. 

 

Com tamanha dedicação de uma equipe de gestores alinhada com os professores e com toda a comunidade escolar —  junto a um trabalho de busca ativa constante —  a evasão não foi um problema registrado na EMEF Adolfina durante a pandemia. Talvez sejam os projetos, talvez sejam as assembleias com alunos e com professores, talvez seja a gestão democrática como um todo… Mas alguma coisa está dando muito certo na escola em que Joice Lamb trabalha, tão certo talvez seja algo que inspire outras escolas públicas e — contrariando o que muitos pensam por aí — até mesmo escolas particulares. 

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