molduraAtivo 46.png

Erguendo diques de coragem como Luther King e Tia Nan

Fala Mestre!

Edição N.º 12 - Janeiro de 2022

Martin Luther King foi um líder icônico. Tinha uma dedicação inabalável pela luta dos direitos civis nos Estados Unidos e, até hoje, inspira pessoas do mundo inteiro a serem valentes, verdadeiras e confiantes de que as circunstâncias, os humanos e as nações podem, sim, mudar para melhor. Com certeza, se ainda estivesse vivo e conhecesse de perto a escola que leva seu nome, no município de Três Rios, no Rio de Janeiro, a Escola Estadual Municipalizada Luther King, o ativista norte-americano seria amigo da professora Nancí Rocha de Brito, a Tia Nan.

“Hoje, eu desejo que a gente possa honrar as pessoas que se foram, que a gente possa deixar nossa marca e ouvir as histórias que estão por aqui. Porque a gente perdeu muita história nessa pandemia”, diz Nancí, nossa estrela do Fala Mestre deste mês — que, assim como Luther King, também tem sonhos que contam com o espírito de coletividade.

A professora, que perdeu o padrasto e o irmão para a covid-19, fala a partir de um contexto de luto, mas também de muita luta. “Meu padrasto tinha 90 anos e tinha ainda tanto para falar, para compartilhar com a gente, e a gente perdeu isso”, lamenta. “Sou filha da Dona Zeza e ela é conhecida por todo mundo aqui. Espero que a gente possa honrar as pessoas e as histórias que se foram, e que possamos ouvir e dar espaço para a fala de todos que ainda estão aqui e têm muito o que dizer”, reflete.

Já aposentada pelo INSS, Nancí segue trabalhando como professora, acumula 32 anos de profissão e, hoje, é responsável pela alfabetização dos pequenos na escola em Três Rios. Esposa de um profissional da saúde, a docente é mãe de trigêmeos adultos e faz parte da comissão do Coletivo Professoras e Professores do Brasil.

Fala mestre 2.png

Integrantes do Coletivo Professoras e Professores do Brasil

Sempre criativa, a professora fez uma série de atividades com as crianças durante a pandemia, criou um grupo de transmissão para auxiliar os pais dos seus alunos no período de isolamento e, reconhecida pela comunidade escolar, chegou a ser homenageada pelos pais dos estudantes ao fim do ano. “A gente conseguiu fazer um encontro presencial e uma senhora tomou a palavra. Eu não sabia, foi uma surpresa de verdade! Ela me homenageou e eu recebi umas lembrancinhas dos pais, foi muito bonito”, lembra a professora. 

Tia Nan foi pega de surpresa em homenagem que recebeu em encontro no fim de ano

Segundo ela, o início da pandemia foi o momento mais difícil, já que teve que lidar com as perdas na família e o adoecimento da própria mãe. “Ia ao psicólogo e só chorava”, conta. A professora hoje trata de uma ansiedade com auxílio médico e, em sua casa, cuida do marido, que está afastado do trabalho para tratar uma depressão. Durante a pandemia, viu pais de alunos indo buscar apostilas de exercícios sem usar máscara e achou importante tomar uma iniciativa.

“Tive que fazer um trabalho de formiguinha com as mães. Fiz um grupo de transmissão, no qual eu mandava muitas informações, vídeos, orientações, para que elas soubessem a gravidade da situação… E adiantou! Elas melhoraram, agradeceram e gostaram muito da nossa ajuda”, conta a professora. “No retorno às aulas presenciais, em agosto, em geral, os alunos obedeceram muito os protocolos. Só pediram para tirar a máscara em alguns momentos, mas ficaram bem comportados”, relata.

“No início, eles só queriam falar o tempo todo. Falar, falar, falar. Acho que tinham acumulado muito, e estavam precisando disso”, lembra a professora. “Mas não senti eles depressivos, ansiosos… Só um aluno que ficou poucos dias com a gente e ele não voltava mais. Daí, eu procurei a mãe dele e ela me disse que ele não havia se acostumado com a nova rotina da escola, que achou que iria ver uma escola como era antes e não tem como ser agora, né? As coisas mudaram”, reflete.

Para 2022, Nancí espera muito trabalho, mas conta com o apoio da comunidade escolar de Três Rios e com os aprendizados que teve em 2021. “Como eu trabalho com alfabetização, acho que esse ano vai ser muito complicado. Cada aluno está em uma fase diferente, já pude perceber”, comenta. “Para esse ano, não tenho projetos já pensados. Prefiro esperar. Ainda não tem nada definido. Como a situação (da covid-19) está pior aqui no Rio, não se sabe se a aula vai ser presencial, se não vai ser, se eles vão estar vacinados, ou não… Está tudo muito incerto”, continua.

Fala mestre 3_edited.jpg

Tia Nan com um dos seus alunos

“Espero que os professores possam se unir. Mas que a gente vá devagar, no nosso tempo, porque eu aprendi isso. Não dá para ficar ansioso e querer tudo para ontem”, diz a Tia Nan. “Que a gente tenha esperança e se entregue totalmente e sem medo ao que esse ano tem a nos oferecer. Eu tenho vivido assim: morria de medo de altura, chegou neste ano e eu fui naquela roda gigante do Rio e disse: ‘Depois da pandemia, eu não tenho mais medo de nada’”, conclui.

logo.png

REVISTA