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Ex-publicitário, professor avalia rumos da educação: "Ou se rende, ou fecha a escola"

Fala, Mestre!

Edição N.º 17 - Junho de 2022

Nos últimos dias, um projeto de lei que regulamenta a prática do ensino domiciliar, conhecida como homeschooling, foi aprovado, em regime de urgência, na Câmara dos Deputados. Além disso, uma proposta de emenda constitucional, que propõe a cobrança de mensalidades nas universidades públicas, voltou a ser assunto no Congresso Nacional. Esses dois temas repercutiram fortemente na imprensa, foram motivo de protestos e movimentaram entidades relacionadas à educação. Mas o que essas pautas indicam sobre o que está acontecendo com a educação no Brasil?

 

Na última edição da Revista Fique Bem, ali na nossa editoria Caneta Vermelha, publicamos um texto do professor Glauco de Souza Santos, de São José dos Campos, no interior de São Paulo, que falava sobre uma escola que decidiu “entrar para o século XXI” e, com isso, se perdeu. Será que estamos cada vez mais próximos de mudarmos a essência daquilo que conhecemos por educação? Ou será que tudo isso faz parte de uma modernização até que coerente com o objetivo pedagógico da escola? É nesse contexto crítico que trouxemos Glauco para falar com a gente como o professor convidado para o Fala, Mestre! desta edição.

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“Tenho acompanhado várias escolas, não só a que eu trabalho, mas as que eu participo como formador e outras que eu observo. As escolas estão se transformando em empresas. Toda a escola particular sempre foi uma empresa, mas o que vem acontecendo nos últimos anos é que as escolas, todas elas, têm deixado de lado muito do objetivo pedagógico e focado no objetivo financeiro, no administrativo, no marketing. Tem muito marketing e pouco conteúdo”, afirma o professor, que trabalha como coordenador pedagógico do ensino médio no Instituto São José. 

Glauco de Souza é coordenador no Instituto São José

“Educação não combina muito com fazer dinheiro, né? Porque educação é como saúde, não é um produto que, se você produzir mais, vai gerar mais dinheiro. Esse é um produto que, muitas vezes, vai gerar prejuízo financeiro, em prol do benefício pedagógico”, afirma o professor, que tem autoridade para falar do assunto. Afinal, Glauco já trabalhou do outro lado da moeda: além da formação em História e o mestrado em Educação, é formado em Publicidade e Propaganda e já atuou na área de marketing de uma multinacional

“Quando eu trabalhava com publicidade, eu gostava do que eu fazia. No meu último emprego, eu trabalhava para uma multinacional, e gostava. Mas não via muito significado naquilo que eu fazia, além de trazer lucro aos acionistas. Eu buscava algo que pudesse mudar a vida de alguém. Daí, após um processo reflexivo, percebi que sempre gostei de ensinar. Quando entrei na área da educação, percebi que uni as duas coisas: gostar do meu trabalho e ver significado no que eu faço”, afirma o coordenador.

 

No entanto, com o olhar treinado a identificar problemas de negócio, Glauco é crítico ao rumo que a nossa educação tem tomado. “As escolas estão ficando muito chatas. Para todo mundo. O aluno acha que tudo é vestibular, é resultado, é aprovação. A escola deixa de fazer diversos projetos porque o aluno tem que fazer simulado. O professor, por sua vez, acha que ficou chato, porque seu trabalho fica engessado, não tem autonomia, liberdade para trabalhar outras questões com os alunos. A escola se torna um lugar frio. E o que eu vejo é que está ficando difícil para as escolas que ainda têm uma preocupação pedagógica sobreviverem. Ou ela fecha, ou ela se rende”, analisa.

Casado, aos 36 anos, Glauco acredita que o período em quarentena, com o ensino remoto, durante a crise da Covid-19, foi importante para ressaltar a importância do espaço escolar na vida de estudantes e professores. “Nesse período da pandemia, a relação professor-aluno se tornou muito técnica e a gente conseguiu perceber como fez falta o espaço da escola para os alunos. Os estudantes tiveram N questões de saúde mental, de depressão, de ansiedade, os professores também! E a gente percebeu a importância do espaço da escola”, afirma.

“A sala de aula é muito importante para todo mundo que vai trabalhar na escola. Porque, só assim, a pessoa consegue compreender a relação ensino-aprendizagem. Que não é só o aspecto técnico, é uma questão de relação, de contato, de desenvolvimento humano”, continua o professor. Já almejando seu doutorado, Glauco garante que, apesar de gostar de trabalhar na função de gestão escolar, sente falta da sala de aula, da proximidade com os alunos, e tem a intenção de desenvolver a sua carreira voltada à área acadêmica. 

Caminhos para a mudança

De acordo com o professor, para frear o que ele chama de “privatização da educação”, é necessária uma maior união entre docentes. “Infelizmente, a nossa classe é muito desunida. Falta mobilização no coletivo, para poder mover políticas públicas no sentido de trazer a educação mais como um direito, não como um produto”, afirma. “Para bater esse movimento, que é muito grande e que tem grandes empresários por trás, é preciso unidade, uma mobilização muito grande dos professores e eu não consigo vislumbrar isso acontecendo hoje. Por falta de ação dos professores, de apoio do sindicato e de prioridade da sociedade mesmo. Hoje, eu vejo um movimento contrário, infelizmente”, lamenta o professor.

Contudo, o professor de São José dos Campos carrega uma esperança na potência boa da humanidade. “Apesar de toda a crítica, eu acredito muito no ser humano. Acho que a minha opção pela educação foi por conta disso: por acreditar que o ser humano tem uma essência boa e a gente tem que trabalhar nisso. Acredito que, quando a gente consegue mobilizar as pessoas e tocar as pessoas de um lado bom, a gente vê coisas maravilhosas acontecendo”, argumenta.

 

“Muitas vezes, sou crítico e trago reflexões que não são fáceis, não são palatáveis, mas é importante analisar o contexto. Não é pra chorar. É preciso falar ‘beleza, essa é a realidade, e o que eu vou fazer com ela?’. Eu não vou aceitar a realidade como ela é, eu preciso transformá-la. Fazer deste um mundo melhor. Eu acredito que a educação tem um papel muito forte nisso” reforça o docente. 

“Eu gostaria de deixar um abraço para todos os professores. Todos estão precisando de um abraço. Não foi fácil reinventar a escola no formato virtual e não tem sido fácil o retorno. Além disso, quero reforçar aos professores que a gente só vai conseguir transformar o país e as condições de educação que a gente tem no Brasil se a gente se unir. Acreditar mais no nosso potencial como professores e se unir mais. Esse é o único caminho”, conclui Glauco. 

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