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Em livro, linguista questiona o ensino da gramática normativa nas escolas

Resenha Literária

Edição N.º 18 - Julho de 2022

Você acredita que os professores de um curso de bacharelado em Letras precisam ensinar gramática normativa aos seus alunos? Foi esse questionamento que motivou Sírio Possenti, mestre e doutor em Linguística pela Unicamp, a escrever a obra Por que (não) ensinar gramática na escola em 1996, uma obra que intriga professores de Língua Portuguesa até hoje.

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Neste mês, a Revista Fique Bem conta com a resenha desse livro, produzida pelo professor Gabriel Rodrigues, que leciona Língua Portuguesa na rede de ensino municipal de Barueri, na Grande São Paulo. Aproveite a leitura e a reflexão sobre a nossa prática!

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Resenha de Por que (não) ensinar gramática na escola  -  por Gabriel Rodrigues.

O nome dado ao livro, com um não entre parênteses, pode espantar qualquer professor de Língua Portuguesa, especialmente os mais ferrenhos defensores da gramática normativa. O texto, no entanto, trazido de maneira leve e coerente por Sírio Possenti, aborda aspectos elementares do ensino ou aprendizagem da língua materna na escola.

Possenti graduou-se em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) em 1969; fez mestrado e doutorado em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 1977 e 1986, respectivamente. De acordo com o Lattes (2022), atualmente Possenti é professor titular no Departamento de Linguística da Unicamp, além de atuar em diversas áreas da Linguística, com ênfase em Teoria e Análise Linguística, principalmente na subárea da Análise do Discurso, em especial nos campos do humor e da mídia.

Embora tenha sido escrito em 1996, baseado em textos ainda mais antigos, Por que (não) ensinar gramática na escola pode ter certa importância para o professor de português que tem em suas práticas pedagógicas a reflexão sobre o que e como se deve ensinar a língua aos alunos naturalmente falantes dela. Por esta razão, Sírio começa explicando que o texto se resulta da soma de outros escritos menores que se concluíram em pequenos desafios propostos a outros autores. Ele explica que, em 1982, veio o questionamento sobre a necessidade ou não de ensinar, no curso de Letras da Unicamp, a disciplina de gramática normativa. Supunha-se, até aquele momento, que o aluno da universidade já havia estudado gramática e, portanto, era chegada a hora de se aprender a analisar fatos da língua conforme teorias mais sofisticadas. Havia, também, o entendimento de formar professores que fossem ensinar a língua e seus funcionamentos, e não gramáticas, até porque, para Possenti, “as principais contribuições da Linguística para o ensino da língua não têm muito a ver com a introdução de gramáticas melhores na escola (…), mas, fundamentalmente, com a colocação em cena de atitudes diversas dos professores em relação ao que sejam uma língua e seu processo de aprendizado (ou aquisição).” (POSSENTI, 1996, p. 8)

Para Possenti, o que deve ser priorizado no ensino da língua é o uso real dela pelos falantes, algo que faz sentido a mim enquanto professor de Língua Portuguesa, pois traz certa familiaridade do aluno para com a língua que ele adquire e fala antes mesmo de entrar na escola. Ressalta-se que o autor afirma não ter a intenção de escrever o texto como normativo, mas de maneira a provocar a reflexão e aumentar o estoque de saberes do professor. Possenti (1996, p. 10) afirma que este é um livro de “divulgação (…) de coisas velhas, óbvias, elementares.”

O livro é dividido em duas partes. Na primeira, o autor apresenta e justifica dez teses que ele entende como básicas em relação ao problema do ensino de língua materna, que são conforme catalogadas no livro:

  • O papel da escola é ensinar a língua padrão;

  • Damos aulas de que a quem?

  • Não há línguas fáceis ou difíceis;

  • Todos os que falam sabem falar;

  • Não existem línguas uniformes;

  • Não existem línguas imutáveis;

  • Falamos mais corretamente do que pensamos;

  • Língua não se ensina, aprende-se

  • Sabemos o que os alunos ainda não sabem?

  • Ensinar língua ou ensinar gramática?

Dos conceitos supracitados, é importante fazer uma ressalva sobre algo que pode não parecer o mais adequado para o momento educacional atual. Quando o autor aborda a questão do ensino da língua padrão, subentende-se que esta é a única forma de expressão que a escola deve apresentar ao discente, sem considerar suas vivências e experiências que o levaram até aquele ponto. Obviamente que este modelo de linguagem deve ser discutido, porém, faz-se necessário observar as razões pelas quais os alunos que não dominam a língua padrão não os fazem.

A própria Linguística se importa com questões extralinguísticas que interferem na maneira com a qual as pessoas se comunicam e o porquê de elas não se comunicarem por meio de um dialeto padronizado. Diversos motivos são explicados através de muitos estudos que não vamos nos aprofundar no momento, mas que tratam da importância dos mais variados dialetos e motivos pelos quais estes são gerados.

Há outros pontos que podemos abordar, no entanto, para que não nos alonguemos, é relevante afirmarmos que estudos indicam a língua enquanto algo mutável. Dessa maneira que do latim, por exemplo, várias outras línguas surgiram e com estruturas diferentes entre si. Restringimo-nos a estas observações acima, porém, salientamos que os pontos citados apenas hão de complementar as palavras geniais que Sírio Possenti nos presentou ainda na década de 1980.

Na segunda parte, ele expõe alguns conceitos de gramática, compreendidos como relevantes para uma proposta de ensino da língua materna, que são:

  • Conceitos de gramática;

  • Gramáticas normativas;

  • Gramáticas descritivas;

  • Gramáticas internalizadas;

Além da noção de regras, língua, erro e um esboço prático de como poderia ser em sala de aula.

Embora o livro seja de 1996, a temática perpassa por pontos até hoje discutidos nos mais diversos currículos nacionais. Possenti (1996, p. 12) já avisara que nada seria resolvido caso não se mudasse a concepção de língua e de ensino de língua na escola. Da publicação do livro até hoje, muitas alterações foram feitas na base curricular, a última resultou na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que orienta os currículos educacionais em todo território brasileiro. O ensino da Língua Portuguesa ficou atrelado à área de Linguagens do documento, junto às disciplinas Arte, Educação Física e Língua Inglesa. Essa área, conforme nos alertava Possenti, objetiva o aluno a “participar de práticas de linguagem diversificadas, que lhes permitam ampliar suas capacidades expressivas em manifestações artísticas, corporais e linguísticas” (BRASIL, 2018, p. 63).

Percebam que a finalidade do documento está nas mais diversas práticas e manifestações que incluem a Linguística. A BNCC assume a perspectiva enunciativo-discursiva da linguagem, algo já antes apontado nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) de 1998 (posterior à publicação de Possenti).

O livro de Sírio Possenti foi tão visionário que já entendia o texto como unidade de trabalho do professor de português (POSSENTI, 1996, p. 9), algo que está explícito nas páginas da Base Nacional (BRASIL, 2018, p. 67).

Dessa maneira, embora não tenhamos nos aprofundado em todos os conceitos abordados por Sírio Possenti em Por que (não) ensinar gramática na escola, pudemos perceber que algo que foi pensado sobre o ensino da língua materna ainda nos idos dos anos 1980 tem serventia e aplicabilidade nos tempos modernos da educação.

Referências:

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018.

Currículo Lattes. CNPq, maio 2022. Disponível em: http://lattes.cnpq.br/0113877782649597. Acesso em: 01 jul. 2022.

POSSENTI, Sírio. Por que (Não) Ensinar Gramática na Escola. Campinas, SP: Mercado de Letras: Associação de Leitura do Brasil, 1996.

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