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Educadora segue conselho, evita dar aulas e encontra mil formas de atuar na educação 

Fala, Mestre!

Edição N.º 18 - Julho de 2022

Tem gente que é essencialmente curiosa, né? Algumas pessoas simplesmente não podem ouvir uma fofoca pela metade, que querem saber de todos os detalhes da história. Outras não conseguem conhecer um lugar novo sem explorar cada cantinho ou curtir todas as experiência que tal espaço pode proporcionar. Há ainda aquelas que são as chamadas “curiosas acadêmicas”: não podem ver um curso, uma área do seu interesse, que logo querem estudar o assunto a fundo e acabam colecionando formações. Talvez seja essa a melhor maneira de apresentar Camila Castro, nossa querida entrevistada e estrela do Fala Mestre deste mês.

Camila disse à nossa reportagem que ainda não se sente confortável sendo chamada de professora. Afinal, filha de uma professora de Ciências, ela admira demais essa profissão e acredita que ser professora é carregar um mundo que ela pouco carregou nas costas. No entanto, também foi na educação que Camila encontrou o seu propósito. Graduada em Marketing, em Letras, em Pedagogia e com pós-graduação nas áreas do Jornalismo, da Linguística e da Literatura, Camila é uma verdadeira pesquisadora, amante do conhecimento, casada há 15 anos e, indiscutivelmente, educadora. 

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“Se eu me conectar com alguma coisa, eu vou estudar”, afirma ela. “Não consigo me chamar de ‘beletrista’, ‘marketeira’ ou ‘jornalista’. Prefiro educadora e pesquisadora”, define Camila, que também revela ser “supernerd”. “Eu nunca sei o que que eu falo para as pessoas, quando elas perguntam a minha formação. Inclusive, tenho dois currículos. Eu coloco o meu propósito no currículo, e isso me define bem. O meu propósito é que a gente consiga garantir, aqui no Brasil, uma educação pública, gratuita e de qualidade”, afirma a, de agora em diante, aqui nomeada educadora. 

“Como o espaço da educação é um lugar que tem muitas influências de diferentes autores, eu já tentei trabalhar de todas as posições possíveis: dentro da sala de aula, como professora, na mediação de leitura, na biblioteca, com formação de professores…” — você conhece alguém assim também?

O que nem todas as pessoas que trombam com Camila sabem é que, lá atrás, quando ela estava ingressando no curso de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), sua mãe, professora de Ciências no ensino básico, a fez prometer que não seria professora — muito embora tenha sido da mãe também o incentivo maior para que a jovem Camila fizesse licenciatura naquela faculdade. 

“Eu acho que ela sabia que eu me envolveria muito e ela não queria que eu sofresse com as crianças. Durante um tempo, eu tentei fazer o que ela me falou. Dei aulas mesmo como professora só no estágio da Letras, além das monitorias gratuitas de literatura que eu cheguei a dar na época do cursinho”, lembra ela. “Junto com Letras, fiz Marketing e foi complicado, porque eram dois mundos totalmente opostos. Uma faculdade, inclusive, era particular — com bolsa de 100% — , enquanto a outra era uma universidade pública”, pontua Camila.

Em sua trajetória multidisciplinar, a educadora também passou por posições em uma livraria, no terceiro setor, ajudou a construir bibliotecas por todo o Brasil e fez mediações de leitura em diferentes contextos, se especializando nessa área e na literatura infantil, que ela prefere chamar de literatura na infância.

Quando refletiu a respeito do seu mestrado, porém, Camila encontrou um empecilho diante do seu olhar multidisciplinar. “De um lado, eu tinha a PUC, que a tem uma linha chamada crítica genética. Do outro lado, tinha a USP, que não vai por esse caminho. Em contrapartida, a USP tem uma parte muito interessante pra mim naquela época, que era a questão social e de recepção das obras. E a PUC não segue esse caminho. Logo, tentei submeter a minha pesquisa nas duas instituições e não deu certo em nenhuma”, conta ela.

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“Acabei conhecendo o Programa de mestrado da Universidade Autônoma de Barcelona e, nesse programa, eles aceitaram o meu projeto”, explica Camila. “Demorou bastante para encontrar o lugar ideal, porque eu queria muito estudar de que forma as duas narrativas (visual e escrita) se relacionam e como que as escolhas estéticas, tanto do texto, na escrita, quanto no texto imagético, potencializam uma questão de denuncia social na literatura para crianças. E foi esse o meu trabalho”, diz com orgulho a nossa convidada. “Só em 2015 eu consegui entregar esse mestrado, 10 anos depois da minha formação”, recorda.

Hoje, ela atua no Colégio Sidarta, em São Paulo, a escola de aplicação do Instituto Sidarta —  uma organização que busca contribuir com as políticas públicas educacionais brasileiras por meio da pesquisa, de constantes publicações e da formação de educadores.

 

Na escola, Camila atua na coordenação de professoras no que se refere especificamente à disciplina de Língua Portuguesa. Contudo, como é uma escola experimental e as professoras que ela coordena são ambivalentes, Camila encontrou espaço para criar e, entre apoios e orientações, costura seus conhecimentos em diferentes práticas educativas. “São várias técnicas que eu tento resgatar, que a publicidade e o marketing roubaram da educação. Como eu sou da linguística aplicada, gosto de trazer o que a academia fala para o chão da escola, para a vida real. As professoras enlouquecem e eu enlouqueço junto com elas”, conclui.

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