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Como vai sua saúde mental desde o resultado das eleições?

Hora do Café

Edição N.º 22 - Novembro de 2022

Mais um mês de campanha se passou e, no último domingo de outubro, definimos democraticamente quem seria o nosso futuro presidente da República, a partir de 2023. Com a vitória mais apertada desde a redemocratização, Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito o presidente do Brasil pela terceira vez. O candidato Jair Bolsonaro perdeu a reeleição por menos de 2% dos votos, superando Aécio Neves, que perdeu para Dilma Rousseff por 3,28% em 2014. Com isso, Bolsonaro passa a ser também o primeiro presidente brasileiro que não foi reeleito pelo povo depois do seu primeiro mandato ocupando o cargo mais alto do nosso Poder Executivo.

Ler o parágrafo acima te despertou quais sentimentos? Como o seu corpo reage a essa notícia? No mês passado, falamos sobre a importância de tomarmos cuidado com a nossa saúde mental em época de eleições. Principalmente em um contexto tão sensível como o que vivemos hoje. Agora, queremos falar sobre o mesmo cuidado, relacionado ao pós-eleições. Como você tem passado desde o dia 30 de outubro?

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Para falar sobre isso, chamamos a psicóloga Núbia Vale Rodrigues, de São João del-Rei, Minas Gerais. Graduada pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), e pós-graduanda em Saúde Global e Diplomacia da Saúde (ENSP/Fiocruz), e em Epistemologias do Sul (CLACSO), Núbia possui pesquisas que atravessam as áreas de narrativas, direitos humanos, gênero e saúde coletiva.

“Falar de saúde mental é falar de política, não tem como desvincular uma coisa da outra. Falar de um cuidado individual e coletivo em saúde mental é falar de um país que está sendo atravessado por muita violência, fome, desigualdade e uma série de outras violações de direitos que se interseccionam”, levanta ela, que se propõe a dissociar o termo saúde mental ao raso discurso do “pensa positivo, toma seu suco verde e faz um yoga, que vai ficar tudo bem”.

“A gente entende que a psicologia tem um papel na defesa dos direitos humanos e, nessas eleições, tivemos um lado a favor dos direitos humanos e outro contra. O país inteiro passa por um mal-estar muito grande, um cansaço muito grande. E a impressão que ficou era de que essas seriam as eleições das nossas vidas”, continua.

“A gente falava como se, naquele domingo, ali na noite do dia 30, a gente tivesse a solução dos nossos problemas. Mas chegou segunda-feira e vão chegar os próximos 4 anos. De qualquer maneira seria desafiador. Afinal, um projeto não se desmorona. Essa violência ainda vai estar presente e isso não vai sumir”, pontua a psicóloga.

Na noite do segundo turno, houve muito choro e celebração. Quem não se lembra das festas que invadiram a madrugada de segunda-feira? Dos gritos durante a apuração? Em uma eleição como essa, cujo resultado foi confirmado depois de mais de 98% das urnas apuradas, não havia de ser diferente.

“É um momento da gente se permitir comemorar. A gente passou por momentos tão difíceis, tantas mortes. Seja as mortes da pandemia, seja a morte da esperança de ter uma vida digna. Então, eu acho que poder olhar pros seus, pra si e pra esse país com esperança, também é se permitir a pensar uma vida diferente, né? Uma vida, quem sabe mais feliz”, ressalta Núbia. “Eu preciso de coisas básicas para essa felicidade, não é algo que só está dentro de mim, é o que eu construo com outras pessoas, e agora cada um está no meio desse projeto, de seguir construindo isso coletivamente”.

Luto após a luta

Segundo a psicóloga, independente do resultado que fosse alcançado no segundo turno, uma certa dimensão do luto tenderia a vir para ambas as partes. “O lado que venceu, após a euforia, passa por um momento de seguir com um projeto, redirecionar uma energia que estava envolvida na campanha e trazê-la para a vida concreta”, afirma. “No caso da derrota, é preciso pensar na perda de um símbolo”, pontua.

“Vale pensar que existe uma diferença entre o luto e a melancolia. O luto é o que é esperado. É esperado uma angústia depois de uma derrota, uma tristeza. Da mesma forma que, quando uma pessoa falece, é uma perda de uma relação que você sente e precisa redirecionar toda a energia que você dava a esse símbolo, esse projeto, essa pessoa”, explica. Mas o que temos testemunhado nas ruas nos últimos dias diz de algo de outra ordem.

O paralisar que pode ser preocupante em relação à saúde mental é quando a pessoa, depois de um certo tempo, não consegue dar sequência às suas atividades. A revista Fique Bem ressalta que ficar em casa, seguir sua rotina diária e assumir a derrota em um jogo democrático não significa paralisar. Seguir a vida aceitando um resultado que não lhe agrada é estar em movimento. No caso dos apoiadores de Bolsonaro, que foram às ruas contestar o resultado das eleições, é preciso atenção. Afinal, vale lembrar que pedir a anulação de um resultado homologado pela justiça é contra a democracia, contra a nossa constituição e é um ato criminoso.  

“Sabíamos que os resultados apertados se refletiriam na inflamação da reação bolsonarista, especialmente com o silêncio conivente de Bolsonaro. Quanto aos protestos, eu acho extremamente vergonhoso. O que essas pessoas têm chamado de ‘grito por liberdade’ e ‘símbolos patriotas’ é um desprezo pela nossa história e a luta pela constituição no restabelecimento da democracia nesse país”, comenta Núbia. 

“Bolsonaro foi derrotado, não o bolsonarismo. A nossa conversa sobre política não terminou na noite de domingo, ela se faz na vida vivida de todos os dias. Que celebremos a conquista nas urnas, mas que também continuemos atentos na defesa da manutenção dos nossos direitos”, conclui.

Retomar relações

Desde o dia da apuração, você já teve que encarar de frente aquela pessoa que você sabe que votou em uma proposta política contrária à proposta que você defende? Como foi essa experiência? A gente sabe que o resultado das eleições também pode interferir diretamente na manutenção de alguns relacionamentos. No decorrer das campanhas, muitos se afastaram de familiares, amigos e até tiveram relações amorosas rompidas. Contudo, a psicóloga afirma que o contato com o outro, quando é possível ter uma escuta, é importante. Mas é preciso atenção.

“No momento em que essa escuta é interrompida por falas vazias ou violentas, quando você sente que está falando com as paredes, ela deixa de ser movimento. Ela causa ansiedade, ela causa mais estresse. Então, se você está disposto a conversar com alguém que ainda queira conversar, ótimo. Mas, em muitos casos, isso não será possível agora”, afirma.

“Algumas relações de fato podem receber os efeitos colaterais disso e demorem a se recuperar — ou talvez nem se recuperem. Esse também é um momento de poder valorizar aqueles espaços em que você se sente acolhido. Os amigos, aquele grupo de gente que compartilha de ideias que fazem sentido para você. Ou então ficar mais recolhido, deixar o turbilhão passar, se você preferir. De qualquer forma, se alimentar de boas conversas com quem está do seu lado pode te ajudar”, conclui.

Por fim, Núbia ressalta que é preciso ser realista. “A vitória está alicerçada em um país com muitas rachaduras, que não vão se reconstruir de uma hora pra outra, mas também é preciso se dar o direito de sonhar. Vamos nos dar o direito de celebrar, que a gente precisa também disso, há muito tempo”, finaliza.

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