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Até onde as inovações tecnológicas podem ser positivas para a educação?

Caneta Vermelha

Edição N.º 16 - Maio de 2022

Sabe aquele discurso que escutamos muitas vezes sobre a escola ter que se modernizar à qualquer custo? A gente sabe que, durante o período de isolamento social, tivemos acesso a diversas ferramentas tecnológicas, e que a introdução do uso delas na nossa prática escolar nos trouxe uma série de benefícios. Aliás, se o mundo mudou, a escola tem que mudar! Estamos em total acordo com isso.

Mas será que é apenas por meio da inovação tecnológica — e a partir de uma cultura pautada na produtividade — que vamos reformar a educação? Qual é o verdadeiro caminho para a revolução na escola? O professor Glauco de Souza Santos, de São José dos Campos, no interior de São Paulo, traz alguns desses questionamentos na crônica A escola chata, que hoje publicamos no nosso Caneta Vermelha. Leia e deixe seus comentários sobre o assunto.

Criança no Tablet

A escola chata — por Glauco de Souza Santos

A escola de Dona Marlene

 

Certa vez, certa escola decidiu “entrar para o século XXI”, como gostava de propagandear a diretora.

 

Dona Marlene sentia, a cada ano, que sua escola não conseguia acompanhar a concorrência desleal de outras grandes escolas pertencentes a enormes conglomerados de ensino. No bolso, doía a redução do número de matrículas e, no coração, doía ter que ouvir que a instituição que fundara há 40 anos estava ultrapassada.

A história de uma escola que virou um case de sucesso

A escola de Dona Marlene viveu seus tempos áureos nos anos 80 e 90 e se vangloriava de ser uma escola de “pedagogia humanista”, que se preocupava com a formação integral de seus alunos, trabalhando não só o lado acadêmico, como também o desenvolvimento emocional, social e espiritual. Dali, saíram vários futuros artistas, esportistas e, também, cientistas. Dona Marlene era vista como uma mãe (e, com o tempo, como uma avó) pelos que ali passaram.

De início, o corpo docente era bastante unido e muitos professores eram muito engajados no projeto de Dona Marlene. Porém, com o tempo, a diretora passou a perceber a dificuldade em encontrar professores que realmente abraçassem a causa e que possuíssem aquilo que ela gostava de chamar de “amor educativo”. Ultimamente, a escola só conseguia contratar professores “dadores de aula”, ou seja, profissionais que entravam, “davam” sua aula e iam embora. Alguns, inclusive, se negavam a participar de projetos pedagógicos ou eventos da escola.

 

O Ensino Médio foi o primeiro a sentir. Salas foram fechadas e o número de alunos reduzia drasticamente ano após ano. O discurso de pais e alunos é que a escola de Dona Marlene não os preparava adequadamente para a concorrência dos vestibulares. Logo depois, os pais começaram a se preocupar com o Ensino Fundamental também, afinal, para que eles pudessem ingressar em um Ensino Médio “forte”, competitivo e que os preparassem para os vestibulares, seus filhos precisariam também de uma base tão forte quanto. Desta forma, muitos alunos deixavam a escola cada vez mais cedo.

Para piorar a situação, há alguns anos, os pais da Educação Infantil começaram a questionar os métodos educacionais da escola de Dona Marlene. Estavam preocupados se os filhos teriam uma preparação acadêmica, desde os primórdios, condizente com o que o futuro lhes aguardava.

Diante deste cenário, após muitas investidas, a diretora resolveu conhecer o que as demais escolas de sistemas de ensino faziam de tão diferente que acabavam por “roubar” seus alunos.

 

Visitou várias delas, foi a congressos do mercado educacional, assistiu a inúmeras palestras de startups educacionais e leu quase todos os materiais didáticos das grandes redes de ensino. Chegou até a viajar para os Estados Unidos conhecer uma dessas escolas “disruptivas”.

 

O consultor educacional

Depois de todo este período de estudo de mercado, Dona Marlene decidiu contratar um dos consultores em “edu-business” que conheceu em suas andanças.

 

Jorge Paulo não era educador, havia se formado em Engenharia Aeronáutica em uma universidade de ponta, atuando na área por pouco tempo. Logo que saiu da faculdade, foi chamado a integrar um grupo de jovens promissores que seriam financiados por um grande magnata para estudarem nos Estados Unidos. Lá, pode ter contato com as mais modernas teorias de gestão empresarial e, “descobriu” que a Educação era o grande filão da vez.

 

Após realizar seu curso de pós-graduação, regressou ao Brasil e passou a trabalhar em startups educacionais, criando aplicativos e produtos para o setor. Um de seus produtos de maior sucesso de vendas foi uma plataforma de “aprendizado autônomo”, na qual o aluno resolvia uma série de exercícios de matemática e os algoritmos da plataforma já direcionavam o aluno para um conteúdo seguinte, sem a necessidade de condução por um professor. Jorge Paulo prometia que esta plataforma iria “revolucionar a educação do século XXI”.

 

Pouco tempo depois, ele foi chamado para ser consultor educacional em uma grande fundação do terceiro setor, pertencente a um grande conglomerado de empresas ligadas ao setor de mineração. A fundação tinha como missão “promover uma educação do século XXI para transformar o Brasil em uma potência mundial”, além, é claro, de garantir isenção de impostos para o conglomerado de empresas que a financiava.

 

Dali, surgiram palestras, entrevistas na TV, passou a ser chamado de “especialista” em educação e participou até de eventos internacionais falando em nome da educação brasileira. Costumava defender que a educação pública brasileira estava falida e que a saída era colocar mais eficiência e trabalhar por metas e objetivos quantificáveis dentro da escola. Gostava de chamar os professores de “operários do saber”, pois achava esse termo poético.

O colégio líder em aprovações

Do encontro entre Dona Marlene e Jorge Paulo surgiu “uma parceria de sucesso”, como sempre enfatizava o consultor nas reuniões de briefing.

 

O cenário traçado por ele era desolador. Aparentemente, não havia mais espaço para instituições de ensino como a de Dona Marlene. Ou ela mudava para se adequar aos novos tempos ou ela desapareceria e seria engolida por uma rede de ensino. E, foi assim, que, por paixão pela instituição que construiu por 40 anos, Dona Marlene entregou as chaves da escola para Jorge Paulo adequá-la aos novos tempos. Ele prometia transformá-la em seu maior “case de sucesso”.

 

O primeiro passo foi fechar parceria com um sistema didático que oferecia apostilas padronizadas, simulados a partir do 4º ano do Ens. Fundamental, além de plataformas digitais, treinamento para professores e uma parafernalha imensa que não caberia aqui neste parágrafo.

 

Depois, para adequar a escola à proposta do sistema de ensino focado em resultados, demitiu cerca de 70% do corpo docente, contratando professores com passagens por escolas que possuíam perfil de aprovações e boas colocações nos mais diversos rankings.

 

Cortou gastos como excursões, materiais de arte, projetos pedagógicos muito onerosos, além de sublocar o teatro da escola e aumentar o número de alunos por sala de 25 para 35 no Ensino Fundamental e para 40 no Ensino Médio.

 

Contratou uma ferramenta digital que media absolutamente tudo: a frequência dos alunos na escola, todas as notas que tiravam em todas as provas, integrando com o sistema financeiro e com a produtividade dos professores. Gostava de chamar essa plataforma de seu “Big Brother escolar”.

 

O sistema avaliativo dos alunos passou a ser composto apenas de provas, tanto de múltipla escolha como de questões dissertativas de segundas-fases dos principais vestibulares. Além disso, os alunos deveriam realizar listas e mais listas de exercícios por semana para que pudessem se preparar adequadamente para a competição que enfrentariam no final do Ensino Médio.

 

As aulas, padronizadas segundo as apostilas, deveriam seguir um cronograma milimetricamente controlado pelos coordenadores pedagógicos que, além desta função, também precisavam garantir que nada saísse do prazo. A medição de tempo e do desempenho dos alunos e professores era tarefa primordial da coordenação.

Professores que fossem mal avaliados pelos seus alunos ou que tivessem suas disciplinas com médias baixas nas avaliações externas realizadas pelo sistema de ensino eram automaticamente desligados da escola.

 

Alunos que apresentassem baixo desempenho nas provas e simulados eram convocados para mais aulas extras de reforço, além de novas listas de exercícios para praticarem ainda mais questões de vestibulares. Além disso, a orientação educacional chamava a família para demonstrar a seriedade da questão. Aqueles casos reincidentes que, mesmo após este investimento do colégio, continuavam a tirar notas baixas, a orientação “refletia” com a família se ali seria o melhor lugar para seus filhos.

Por fim, Jorge Paulo fez um forte investimento em marketing, propagandeando aos quatro cantos que a escola tinha como base o uso de metodologias ativas e plataformas digitais de última geração, garantindo o desenvolvimento da autonomia nos estudos, a personalização do aprendizado e o atingimento dos resultados nos vestibulares, da Educação Infantil ao Ensino Médio.

 

Desta forma, com uma drástica redução de custos tidos como inúteis ou que pouco agregavam para o atingimento dos resultados esperados pela nova gestão do colégio, aliada à uma mudança estrutural no setor pedagógico e a um forte investimento em marketing, a escola de Dona Marlene, sequestrada pelo consultor Jorge Paulo, respirava ares de modernidade e se recolocava novamente no mercado educacional da cidade.

Alguns alunos novos chegaram, aliciados pela sedutora promessa que a propaganda do colégio fazia. Outros tantos saíram, decepcionados pelo que a escola havia se transformado. Alguns dos que saíram chamavam a escola de “fábrica de moer gente”, por conta da pressão, competição e volume de aulas e atividades às quais os alunos eram submetidos. Havia casos de depressão, crises de ansiedade e burnout, todos minimizados pela direção. Os pais mais antigos acusavam Dona Marlene de ter desvirtuado os valores iniciais da instituição.

 

Jorge Paulo concluiu sua missão e voltou a palestrar, dar entrevistas para revistas (uma delas o colocou na capa como o “homem do ano para a Educação”) e até ganhou um prêmio internacional sobre seu “case de sucesso”. Sua promessa era aplicar a mesma receita no sistema público de ensino. Garantia que em 5 anos mudaria a cara da educação brasileira. Um secretário de educação de uma cidade no Ceará, jovem promissor também, o chamou para esta empreitada. Seria o embrião do que, futuramente, poderia ser aplicável a todo o país.

 

Dona Marlene, continuou a dirigir a sua escola. Já não sabia mais se era bem sua. Já não sabia mais se era escola. O breve entusiasmo alardeado pelo consultor, logo passou. Os resultados prometidos não vieram. Dona Marlene não sabia bem se a culpa era dos professores, se era dos alunos ou se era sua. Na verdade, já não mais entendia de educação. Não desta educação. Esta educação que “veio para ficar”, como afirmava o consultor.

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Até onde as inovações tecnológicas podem ser positivas para a educação?