Nossa missão é a de transformar o mundo, mas não queremos — e sabemos que não é possível — fazer isso sozinhos. Também sabemos que, quando estamos rodeados de pessoas queridas, em um ambiente seguro e compassivo, levando a vida com leveza e diversão, tudo é possível. É desse sonho que saiu o projeto Fique Bem e é essa a linha de pensamento que nos acompanhou desde o início, mas principalmente neste mês de novembro. 

Não é à toa que chamamos para nossa live, no início do mês, uma pessoa que é especialista em mobilizar pessoas por meio do lúdico, de gincanas, e que sabe muito bem como transformar o mundo brincando. Na sequência, conversamos com um professor que vive na intenção de criar espaços compassivos e seguros, dando luz a um sentimento de interdependência agradável e fomentando o crescimento coletivo. Foram, portanto, duas conversas que se complementaram e que nos inspiraram à mudança, de forma leve e confiante. Isso sem falar de todos os textos dos nossos colunistas, sempre potentes e certeiros.

Desde o ano passado, falamos aqui no Fique Bem sobre a importância de criarmos um ambiente que seja agradável, seguro e saudável para todos que compõem a comunidade escolar. E, claro, focamos as nossas atenções no bem-estar dos professores, esses que, muitas vezes, não são priorizados pela sociedade. Foram 22 lives, muita troca por meio das redes sociais e, hoje, publicamos a nossa décima edição da Revista Fique Bem, esse espaço de tanto carinho e aprendizado que construímos juntos. 

As lives deste mês foram as últimas lives de 2021. Afinal, inspirados por esse clima de mudança e transformação, em dezembro, faremos uma edição especial da nossa publicação e, em 2022, vocês serão presenteados com uma nova Revista Fique Bem, ainda mais interativa, repleta de novidades e construída, como sempre, em conjunto. Estamos muito ansiosos!

Neste misto de animação para o que vem aí e de gratidão pelo que já fizemos até aqui, digo de todo o coração: espero que você mergulhe nos próximos textos com toda a experiência de quem já sabe nadar nessas águas e com toda a segurança de que você estará bem acompanhado. Espero ainda que, ao fim da nossa conversa de hoje, você chegue à conclusão que eu cheguei, após esse ano de tanto aprendizado: na dúvida, ame. Aproveite a leitura, nos conte o que achou e, mais uma vez, fique bem, professor!

Um beijo

Professora Fique Bem

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Mudar o mundo também pode ser algo divertido

 

A gente pode não se conhecer, caro professor, mas eu tenho uma certeza a respeito dos seus desejos: você quer ser feliz e adoraria viver em um mundo melhor e longe de qualquer sofrimento. A verdade é que, se pudéssemos, todos nós bem que gostaríamos de fazer algo de bom para o mundo, transformar as nossas realidades e sermos responsáveis, inclusive, pela felicidade de uma comunidade inteirinha. O problema é que, com exceção de poucas pessoas que realmente priorizam isso, quase ninguém tem tempo, disposição e energia para fazer transformações concretas — nem no próprio bairro.

LIVE: TRANSFORMAR O MUNDO INTEIRO... BRINCANDO

Afinal, é muito difícil realizar mudanças em uma comunidade de maneira solitária. E, cá entre nós, como é difícil mobilizar as pessoas para participarem de ações sociais, não é mesmo? Acontece que todos nós temos muitas questões individuais com as quais nos preocuparmos. E, bem, ações políticas, marchas, passeatas, não costumam ser exatamente divertidas… Ou será que transformar o mundo também pode ser algo divertido?

Na primeira live do mês de novembro, o Fique Bem trouxe um papo super inspirador para a nossa rede de professores. Falamos com o super Edgard Gouveia Jr., uma pessoa que descobriu o segredo para mobilizar pessoas de uma forma rápida, gratuita, divertida e espetacular: as gincanas! Edgard é arquiteto e atualmente desenvolve e realiza atividades cujo principal objetivo é estimular as pessoas a trabalharem em times, acreditando que pequenos pedidos e pequenas missões podem mudar o mundo.

“O mundo precisa ser mudado, mas de uma forma divertida. Quando a gente faz uma marcha, ninguém vai. Só vai aquele pessoal de sempre. Agora, pense no carnaval, numa festa junina, numa gincana… Todo mundo vai! Tem algo nas brincadeiras, nas torcidas de futebol, que une as pessoas. E é com essa energia que a gente quer mudar o mundo”, afirma Edgard. “Pense nas escolas de samba: as pessoas são simples. Muitas vezes, são pessoas bem pobres, inclusive, que se dedicam um ano inteiro voluntariamente, sem ganhar um tostão, para produzir o espetáculo mais valioso do mundo. De onde sai aquela energia? Quando a gente faz coletivamente e em alegria, todo mundo faz”, argumenta o facilitador.

 

A história de vida de Edgard confirma tal teoria. Entre os diversos depoimentos que o nosso convidado compartilhou com a gente nesse encontro, destacam-se as lembranças do projeto Oásis, criado após o desastre com enchentes em Santa Catarina, no ano de 2008. Na ocasião, Edgard mobilizou mais de três mil jovens de diferentes regiões do Brasil, para revitalizar doze comunidades afetadas pela pior tragédia natural da história do estado. E tudo foi feito no clima de desafio e brincadeira — com propósito.

 

“A gente criou uma gincana tradicional. Com a ajuda do Orkut, na época, jovens do Brasil inteiro foram desafiados, montaram times e perguntaram para os moradores das áreas afetadas: ‘se a gente pudesse construir alguma coisa que pudesse te trazer de volta a alegria de viver, o que seria?’. A partir de então, foram dois meses e meio de missão”, conta o arquiteto. “Demos um jeito para chegar lá, sem envolver dinheiro próprio, e as equipes tiveram seis dias para construir alguma coisa com o objetivo de fazer a comunidade esquecer do trauma causado pelas enchentes”, conta ele.

 

Dê play no vídeo e descubra tudo sobre o projeto Oásis — e ainda sobre outras histórias que Edgard tem para compartilhar com a gente. Você vai conhecer a Jornada X e saber como ela pode ajudar a amenizar o problema da evasão escolar. Além disso, o mais importante: você vai ver exemplos e descubrir como você também pode transformar o mundo mobilizando os seus alunos. Afinal, as gincanas fazem com que o impossível seja desejável, o excitante vire uma aventura épica e o aprendizado seja repleto de autonomia e diversão.

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Como gerir uma sala de aula com amor e compaixão?

 

Imagine se o nosso semestre letivo fosse transformado em um jogo de tabuleiro, daqueles convencionais, com cartas de sorte e revés. Cada peão é um estudante e, em um determinado momento do jogo, uma carta retirada da pilha diz: “A professora está em um dia ruim. Volte cinco casas”. Agora, deixe de lado o jogo e volte sua mente para suas experiências reais. Quantas casas (e quais casas) os nossos alunos acabam “voltando” devido ao mau humor ou à falta de disposição dos professores? E, como somos humanos, é claro que teremos dias bons e dias não tão bons. Mas, afinal, a saúde mental de um professor interfere na vida de quantas pessoas?

LIVE: GESTÃO DE SALA DE AULA

Foi com essa metáfora sobre gestão de sala de aula que começamos o segundo encontro do nosso mês, com um convidado mais que especial. Valentin Conde Cruz é coordenador de projetos no Instituto Sidarta, professor de práticas contemplativas para a infância, pedagogo formado pela PUC-SP e mestre em ciências da religião com ênfase em estudos budistas pela Fo Guang University de Taiwan. Além de pós-graduado em Gestão Emocional nas Organizações pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein, nosso convidado é colunista aqui da Revista Fique Bem e um dos idealizadores de todo o projeto.

“O tempo gasto nas relações na escola, não é tempo perdido. Querendo ou não, a gente vai ter que lidar com educação afetiva. Todos temos habilidades sociais e precisamos desenvolvê-las, da mesma forma como desenvolvemos as nossas habilidades intelectuais”, afirma Valentin. “Habilidades intelectuais ajudam a gente a fortalecer as nossas habilidades sociais e vice-e-versa. Eu não acredito que essas coisas devam competir na escola. A vida é uma só, o trajeto escolar, a história escolar é apenas uma. Não tem muito como dividir, priorizar algo, separar em caixinhas”, argumenta o professor especialista em criar uma sala de aula compassiva.

A conversa com Valentin foi um retrato de como deve ser uma aula com ele. O colunista da nossa revista criou um ambiente seguro de aprendizagem, tratou assuntos densos com leveza, mostrou vulnerabilidade e ainda construiu, junto a todos que o assistiam, argumentos e reflexões profundas, mas com palavras simples e pautado na compaixão, no afeto e em situações da vida real, como uma aula deve ser.

“Não tem outro jeito. Não posso criar uma sala de aula compassiva, se isso não for uma realidade para mim. Compaixão, bondade, não tem como ensinar se não se vive. Você, como mediador da sala de aula, precisa ter esses valores muito fortes em si”, afirma Valentin. Contudo, o professor lembra que não é preciso virar um ser de luz, paz e gratidão para dar essas aulas para as crianças. “São as nossas imperfeições que nos fazem iguais aos estudantes e é preciso não ter medo de perder os status, de se mostrar vulnerável”, conta. “Quando a gente constroi a relação a partir de um princípio de confiança, não vai ter ninguém se sentindo menor”, reflete.

 

A conversa durou uma hora, mas ainda bem que está gravada! Afinal, são muito conceitos, muitas reflexões e muitos aprendizados que alcançamos nesse encontro, e vale a pena assistir várias vezes. Assista à live e descubra o significado das expressões “convocador de aldeia” e “resiliência comunitária”. E, na dúvida, ame. “Se, em alguma situação, você não souber o que fazer em sala de aula, pense qual seria a atitude mais amorosa para você e para o outro naquela situação. O amor não falha e a gente nunca ama demais”, conclui nosso convidado.

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Colunas

FEMINISMO

 

Por que precisamos falar de raça para promover uma agenda educacional antissexista com efetividade?

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Gina Vieira Pontes
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Ceilandense, professora da educação básica no DF há 29 anos. Mestra em Linguística, especialista em Desenvolvimento Humano, Educação e Inclusão Escolar e em  EAD. Autora do Projeto Mulheres Inspiradoras.

Segundo pesquisa publicada no site Geledés, há mais de 50 anos, em 20 de julho de 1971, quatro jovens — Oliveira Silveira, Antônio Carlos, Ilmo da Silva e Vilmar Nunes — criaram, em Porto Alegre, o coletivo Palmares. Todos eles “(...) compartilhavam a revolta diante da maneira como se reduzia a história de africanos e seus descendentes no Brasil à imagem da absoluta submissão ao escravismo. Nas escolas, os festejos do Treze de Maio — ao negarem as lutas negras por liberdade, em benefício da exaltação da princesa Isabel, como a ‘redentora dos escravos’— eram fonte de constrangimentos para crianças, jovens e adultos”.


A reinvindicação do dia 20 de Novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares, como Dia da Consciência Negra, faz parte de um conjunto de ações históricas de luta por direitos e resistência do Movimento Negro às opressões de raça. A data passou a compor também a Lei 10.649/2003, que torna obrigatório o ensino da cultura Africana e Afro-brasileira em todas as escolas do país.

Em meio às celebrações e lutas trazidas em função do mês de novembro, é importante destacar que promover uma educação antissexista inclui compreender como mulheres negras e brancas vivem opressões sexistas de forma diferente, dentro de um regime orientado pela lógica do Racismo Estrutural. Tudo o que chamamos de Estado Democrático de Direito no Brasil está sustentado no Racismo Estrutural, que segundo o professor Sílvio Almeida (2018) é esta maneira de o país organizar-se econômica, social e politicamente, concedendo privilégios a pessoas brancas e retirando direitos de pessoas negras. O Brasil é um país que, por quase 400 anos, traficou, explorou, torturou, estuprou e matou pessoas negras negando-lhes o reconhecimento mínimo da sua dignidade humana.

Parte do regime escravocrata brasileiro foi submeter as mulheres negras às violações mais perversas. Dados históricos revelam que elas não eram poupadas do trabalho pesado, eram estupradas para que produzissem crianças a fim de, no futuro, serem escravizadas, eram impedidas de cuidar dos próprios filhos e obrigadas a cuidar dos filhos das sinhás, e pelas mãos delas sofriam todo tipo de abuso e violência. Depois de decretar o fim da escravização de pessoas negras, o Brasil criou uma série de leis para impedir que elas tivessem acesso a direitos básicos — terra para plantar, renda, emprego formal, educação. Um exemplo de como toda a legislação criada no Brasil foi feita para favorecer pessoas brancas em detrimento de pessoas negras é a Constituição de 1934, que estimulava a “Educação Eugenista”, ou seja, aquela a partir da qual as crianças aprendiam desde cedo, na escola, que os brancos são superiores. 


Passadas 16 gerações desde o período do Brasil Colônia, o país não realizou nenhuma ação efetiva de reparação histórica necessária à promoção da justiça social. E os dados do IPEA confirmam essa omissão. Quando feita a análise dos dados privilegiando o recorte racial e de gênero, percebe-se que as mulheres negras, em função desta negação histórica de acesso a direitos básicos, são as que mais sofrem violência doméstica, as que mais ocupam os postos de trabalho informal, as que têm escolaridade mais baixa. Se estamos dentro de uma cultura patriarcal que concede às mulheres brancas, como possibilidade de existência e identidade, o casamento e a maternidade, para as mulheres negras nem isso é permitido. Ainda prevalece no imaginário coletivo e nas estruturas sociais a crença que opera no país desde os primórdios de sua fundação: “as mulheres brancas são para casar, as pretas para a cozinha e as mulatas para os prazeres da carne”. Para as mulheres negras de pele retinta o que resta é o trabalho braçal, o trabalho doméstico. Para as mulheres negras de pele mais clara, a objetificação e a exploração sexual. Vale lembrar que o termo ‘mulata’, embora esteja presente neste ditado popular do Brasil Colônia, aqui recuperado, não deve ser usado para referir-se às mulheres negras.


Promover uma agenda educacional antissexista só terá efetividade se houver um olhar específico para as meninas negras. São elas que, frequentemente, são retiradas da escola para realizar trabalho doméstico, para serem exploradas como babás. A aprendizagem de meninas negras é impactada pelo olhar de baixas expectativas projetado a elas, e por suas vidas precarizadas economicamente, em função deste histórico de um país que atuou de forma sistemática para exterminar pessoas negras. Redes e unidades de ensino realmente atentas à promoção de uma educação que se dê, em e para os Direitos Humanos, precisam pensar políticas públicas com recorte de gênero e de raça, precisam estar atentas aos índices de evasão, abandono e reprovação dos estudantes negros.

 

O Dia da Consciência Negra ajuda-nos a lembrar que não basta falar de consciência humana, quando vivemos em um país que, na prática, nunca reconheceu pessoas negras como humanos. É necessário falar sobre consciência negra para que todos compreendamos, em profundidade, como o racismo, o pior dos sistemas de opressão, responsável por toda a geo-política do mundo, segue operando e matando pessoas negras todos os dias.

Referência:

ALMEIDA, Sílvio. O que é racismo estrutural. Série Feminismos Plurais. Letramento, Belo Horizonte, MG, 2018.

RACISMO

 

O cinquentenário do Dia da Consciência Negra

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Lorena Bárbara Santos Costa
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Professora da rede pública municipal dos municípios de Salvador e Lauro de Freitas (BA). Pedagoga pela UFOP e Pós-graduada em Psicopedagogia e em Pobreza e Desigualdade Social. Mestranda em Educação de Jovens e Adultos- UNEB.

“... em nós, até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime. Mas nossos críticos se esquecem que essa cor é a origem da riqueza de milhares de ladrões que nos insultam; que essa cor convencional da escravidão, tão semelhante à da terra, abriga sob sua superfície escura, vulcões, onde arde o fogo sagrado da liberdade.” Luiz Gama


O ano era 1971, quando pela primeira vez foi celebrado o Dia da Consciência Negra em homenagem a Zumbi dos Palmares em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, por um grupo de militantes do Movimento Negro. A data 20 de novembro foi escolhida por ser o dia em que morreu o grande líder do Quilombo dos Palmares e surgiu em crítica à data 13 de maio, que considera como piedoso o ato da princesa Isabel em abolir a escravidão no país em 1988. Acontece que, desde que os povos negros africanos foram sequestrados e trazidos forçosamente para diversos países da América e também alguns da Europa, houve muita resistência e luta contra o sistema escravocrata, e a liberdade sempre foi algo conquistado, e nunca um ato benevolente de nenhum opressor..

 

O 20 de novembro, representa um dia de reflexão sobre a luta e a resistência dos povos negros escravizados durante séculos no Brasil. É um dia de mobilização, dia de discutir sobre o racismo estrutural, dia de exigirmos
reparação através da efetivação de políticas públicas que contemplem os direitos negados da população negra, é dia de divulgarmos as potências negras nas diversas áreas do conhecimento que são invisibilizadas no nosso
dia-a-dia. É também dia de celebramos a cultura negra que sempre sofreu preconceito e perseguição e que, ainda assim, resiste através da nossa culinária, religiosidade, estética, corporeidade, dança, arte, música, festividade e etc.

A data 20 de novembro é uma data política que precisa estar na agenda nacional do nosso país, pois ainda se fazem necessários constantes debates acerca dos problemas que ainda afligem as pessoas negras, como o genocídio da população negra, a falta de acesso à educação, o desemprego, a falta de moradia e acesso aos bens e serviços da sociedade.

 

O 20 de novembro, apesar de ser uma data simbólica, representa na figura de Zumbi dos Palmares vários homens e mulheres que lutaram e morreram nos inúmeros levantes em que negros e negras morreram pela liberdade de um povo, como, por exemplo, a Revolta dos Búzios, a Revolta dos Malês, a Revolta da Chibata, a Revolta da Balaiada, a Guerra de Canudos, a Revolta de Manuel Congo, a Revolta do Queimado, a Revolta do Cantagalo, o Levante dos Jangadeiros, a Revolta das Carrancas, a Revolução do Haiti e também as mobilizações sociais atuais contra as chacinas diárias nas favelas e periferias brasileiras.

Vale lembrar que só apenas 32 anos depois da primeira celebração do 20 de novembro é que o Estado brasileiro instituiu a Lei 12.519 de 10 de novembro de 2011, assinada pela então presidenta Dilma Rousseff reconhecendo a data como importante para o país. Não podemos esquecer a importância do Movimento Negro na luta antirracista e seu legado na efetivação das mudanças das políticas públicas como a Lei Afonso Arinos, que tornou contravenção penal a discriminação racial através da Lei. nº 1.390/1951, da Lei Caó, que define como crime o ato de praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional através da Lei nº 7.716 de 5 de janeiro de 1989, da Lei nº 10.639/03, que estabelece a
obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas da educação básica públicas e particulares e também a Lei das Cotas, que prevê a reserva de 50% das vagas das universidades e institutos federais de Ensino Superior a estudantes de escolas públicas através da Lei nº 12.711/ 2012.

 

Combater o racismo é dever de todos em uma sociedade!
 

Referências:

GAMA, Luís. Primeiras Trovas Burlescas e Outros Poemas (org. Lígia Ferreira). Sâo Paulo: Martins Fontes, 2000.

GOMES, Nilma Lino. Cotas para a população negra e a democratização da universidade pública. In: PEIXOTO, Maria do Carmo Lacerda (org.). Universidade e democracia: experiências e alternativas para a ampliação do acesso à universidade pública brasileira. Belo Horizonte Ed. UFMG, 2004.

SILVEIRA, Oliveira. Vinte de Novembro: história e conteúdo,in SILVA, Ptronilha Beatriz Gonçalves e;
SILVERIO, Valter Roberto (Orgs) . Educação e Ações Afirmativas: Brasília-DF: Mec/Inep, 2003.

PEDAGOGIA DO ENCANTO

 

Transformações

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Flávia Pereira Lima
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Formada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa e doutora em Recursos Naturais do Cerrado pela Universidade Estadual de Goiás. É professora no Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação da Universidade Federal de Goiás. Seu maior desejo: que suas alunas e seus alunos compreendam a beleza de ler e explicar o mundo por meio do conhecimento científico.

E eis que chegamos ao décimo e último texto da coluna Pedagogia do Encanto! Que honra poder compartilhar com vocês minhas experiências e reflexões sobre aprender e ensinar.

 

Ao longo deste ano, pude registrar muitas das minhas visões como professora. A gente sabe da necessidade do registro escrito, mas na correria do dia a dia, isso acaba sendo deixado de lado. Por isso, valorizo tanto o espaço que tive aqui com vocês.

Na coluna, tratei de temas muito preciosos para mim: a curiosidade, a investigação, o papel da hipótese, o experimento, o trabalho em grupo, a imaginação e as intencionalidades pedagógicas que perpassam tudo isso. Remexendo nas minhas memórias, muitas histórias vieram à tona. Tirei um tempinho para entender como elas me transformaram e encontrei muita coisa bonita. 

Sabe por quê? Porque aprender é transformador! Aprender nos torna mais presentes no mundo, nos ampara e prepara para os desafios da vida. Dá trabalho estudar? Sim, com certeza! Esforço, dedicação e reflexão fazem parte de todo o processo no qual há construção de novos saberes e habilidades e desconstrução de ideias estabelecidas. E como aprender não ocupa espaço, como diria meu saudoso pai, a gente estará sempre mudando, aprimorando os nossos olhares.

 

Levar a turma a refletir sobre essas transformações é uma forma de dar significado ao processo de aprender e é o que busco cotidianamente. Veja só o que um dos meus alunos escreveu sobre as aulas de ciências:

“Com as aulas de ciências, eu vejo o mundo de outra forma. Eu olho para as árvores e os insetos de um outro jeito. Quando eu termino as aulas, eu saio animado com tudo o que eu aprendi. Adorei entender o nosso sistema digestório, agora posso ajudar minha irmã em sua vida. Agora que entendo mais o mundo eu sei o que pode me fazer mal.”

 

Um garoto de 10 anos percebe que o conhecimento transforma o seu olhar sobre o mundo e que afeta a sua vida e de outras pessoas, no caso a irmã. Gente, é bonito demais! E pode ser assim. Melhor, deve ser assim. É importante alcançar um estado de encantamento para que alunas e alunos “carreguem aula para casa”. É preciso atentar para quando esse algo encantador ocorre em sala de aula e que, de tão forte, se mantém vivo nos alunos.


Estar feliz e empolgado não é uma condição para aprendizagem. Mas sabemos que estudantes mais engajados aprendem mais. Temos aqui um ciclo virtuoso: o envolvimento do estudante promove aprendizagem e isso gera mais engajamento. Isso é facilmente comprovado em sala de aula, assim como o inverso, infelizmente, também é.

 

Sabemos que a educação é o mais potente agente de mudança na sociedade. E eu, professora de crianças, vejo isso nas meninas e meninos. Olho para cada um deles e desejo que as transformações ocorridas nas aulas de ciências afetem positivamente o futuro, mesmo que seja por meio das memórias de como foi bom aprender a explicar o mundo com o conhecimento científico. Desejo também que colegas professoras e professores de todo o Brasil encontrem em si e na escola motivos de encantamentos. Tenho certeza de que, quando as condições são dadas, a escola vibra e é feliz.

Referências:

LUMBY, J. Enjoyment and learning: policy and secondary school learners’ experience in England. British Educational Research Journal, v. 37, nº. 2, 2011 

LEI, H; Cui, Y; Zhou, W. Relationships between student engagement and academic achievement: a meta-analysis.  Social Behavior and Personality, v. 46, 2018.

LINDSTRÖM, E. R.; Chow, J. C.; Zimmerman, K. N.; Zhao, H.; Settanni, E.; Ellison, A. A Systematic Review and Meta-Analysis of the Relation Between Engagement and Achievement in Early Childhood Research. Topics in Early Childhood Special Education, 2021.
 

COMPAIXÃO NA ESCOLA

 

Para educar uma criança, é preciso de toda a aldeia

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Eduardo Pacifico
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Fundador e Diretor da ONG Gaia+. Ecólogo, mestre e doutor em Ciências Ambientais, criou e realizou projetos de habilidades socioemocionais com milhares de crianças e professores em todo o Brasil.

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Valentin Conde

Coordenador de projetos no Instituto Sidarta, professor de práticas contemplativas para a infância, Pedagogo formado pela PUC-SP e mestre em ciências da religião com ênfase em estudos budistas pela Fo Guang University de Taiwan. Pós-graduado em Gestão Emocional nas Organizações pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein.

Em nossa primeira coluna nesta revista, lançamos uma pergunta para você. Será que você se lembra qual foi?
 

“O que deseja para seus estudantes?”

Foi por meio dessa pergunta que iniciamos uma jornada de reflexões que durou um ano. Falamos sobre afeto, navegar pelas emoções, autocompaixão e autorregulação, interdependência e escuta empática, compaixão e transformação de conflitos. Ufa! Dar conta de um tema tão maravilhoso quanto o papel da compaixão na escola dá pano pra manga, certo?

 

Parece complexo, mas no fim das contas é sobre a resposta para essa pergunta: O que você deseja para seus estudantes? Se pudermos responder essa pergunta com profundidade e clareza, visualizaremos o caminho. Porém, segundo o povo macua, não é possível trilhar esse caminho sozinho. Para esse povo africano, é preciso toda uma aldeia para educar uma criança.
 

Foi em Moçambique, no início da década de 1990, período de reorganização pós-guerra civil, que o educador social brasileiro Tião Rocha aprendeu essa lição. Na ocasião, Tião visitou a comunidade de Namalima, lugar repleto de pobreza material, mas cheio de brilhos nos olhos, segundo o educador. Perplexo com a energia daquele povo, Tião perguntou por todo o canto qual era o motivo dessa alegria. Ele encontrou o senhor Antônio Silva, morador das savanas e construtor da única escola de pau-a-pique do vilarejo. Segundo Antônio, assim que a escola ficou pronta, o povo percebeu que não havia professor para ensinar nela. Ele então saiu batendo de porta em porta, perguntando o que as pessoas sabiam e podiam ensinar:

 

– “O que o senhor sabe fazer?”

– “Ah, senhor Antônio, eu sei fazer machamba.” 

– “Ótimo, vai ensinar na escola, uma semana, tá. E a senhora?”
– “Eu sei fazer capulana, Seu Antônio”. 
– “Ótimo, vai ensinar na escola, uma semana tá. E a senhora?” 
– “Eu sei torrar castanha de caju.” 
– “Ótimo, vai ensinar na escola, uma semana, tá”.

 

Foi de porta em porta que senhor Antônio preencheu a grade de aulas de um ano todinho e já tinha fila para dar aula. Segundo ele, não havia feito nada além de “convocar uma aldeia”. Tião voltou para o Brasil determinado a tornar-se um “convocador de aldeias”. Foi com esse valor que ele atuou em comunidades no Maranhão e no Vale do Jequitinhonha, transformando cada uma delas em aldeias que cuidam de suas crianças.
 

O que deseja para seus estudantes? Excelência? Sucesso? Recursos? O senhor Antônio Silva desejou uma aldeia inteira para suas crianças. Para os macua, mais importante do que a resiliência individual é a resiliência comunitária. Somente uma aldeia inteira pode garantir o futuro de suas crianças. E somente as crianças podem garantir o futuro de uma aldeia inteira.

 

Que tal convocar sua aldeia para educar as crianças? Essa tarefa pode ser mais fácil do que parece. Você pode buscar grupos já existentes e se juntar a eles, como grêmios, clubes, coletivos, entre outros. O jogo “Primavera X” é um exemplo de gincana social que reúne jovens brasileiros para cuidar dos recursos hídricos no país inteiro. Além disso, existem coletivos juvenis pelo meio ambiente espalhados por toda a parte e ajuda é sempre bem-vinda!
 

A melhor parte é que a compaixão é um recurso que quanto mais se divide, mais se multiplica. Por isso, nesse fim de ano, não se esqueça de descobrir sua aldeia...


Caso não encontre grupos com essa causa, você pode, aos poucos, cocriar esse espaço em sua escola. Lembre-se: você está sempre a um passo de encontrar um outro alguém com o mesmo objetivo e esse passo pode ser apenas um convite. Vamos juntos?

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O que vem por aí

A última edição da revista em 2021 será um pouco diferente.

Você não perde por esperar!