Convido-lhe a fazer uma breve reflexão e voltar ao tempo, retomando à época em que você era aluno pequeno. Vamos? Prometo que será rápido! Peço que lembre-se daquele empecilho, aquela situação desagradável, que, por algum período — meros segundos ou longos meses —  fez você sentir repulsa à ideia de ir à escola. Tente lembrar do que passava na sua cabeça na época. Pode fechar os olhos, se preferir. Pronto? Agora volte ao presente, professor.

No mês em que celebramos o centenário de Paulo Freire, vale lembrar que a escola é muito mais que prédios: é espaço de socialização, formação cidadã, diálogo e transformação. Diante disso, é claro que, por ser um dos primeiros ambientes em que somos expostos à sociedade, todos nós já tivemos alguma questão que nos fez querer evitar a escola: seja pela preguiça, cansaço, sono ou falta de motivação, sejam por alguma dificuldade de relacionamento, casos de bullying, ou até de racismo, homofobia ou sexismo.

 

Mas agora que estamos do outro lado, atuando como corpo docente, é nossa função fazer o possível para que a escola seja um ambiente acolhedor, leve, de segurança e de respeito a todos que lá entram — sejam estudantes ou funcionários. E é por isso que, neste mês, tocamos em um assunto que alguns professores podem considerar espinhoso, mas que é extremamente necessário e urgente: estaria a escola preparada para lidar com questões LGBTQIA+? As reflexões quanto a esse assunto são verdadeiras aulas e servem para todos nós.

 

Além disso, a Revista Fique Bem deste mês traz uma conversa com uma psicóloga que nos ajuda a lidar com as situações do dia a dia que estão fora do nosso controle, nos dando dicas de como reforçar a nossa resiliência. É imperdível! Por fim, publicamos uma animação que explica a diferença entre bullying e racismo; e contamos com os textos ácidos e críticos dos nossos colunistas favoritos. 

 

É, a revista desse mês primaveril não é feita só de flores. No entanto, prometo que, como sempre, falamos de temas densos com a amorosidade e a assertividade que nos pareceu necessária. Como foi dito durante uma das nossas lives neste mês, qualquer processo de modificação, ainda que seja feito com base no amor, passa pela disputa. Pois bem: estamos prontos para as disputas que aparecerem, focados em mudar tudo o que impeça a escola de florescer - seja no asfalto ou em uma floresta de bambus.

Um beijo

Professora Fique Bem

 
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A escola está preparada para lidar com questões lgbtqia+? 

 

Muito se fala sobre representatividade, diversidade e sobre a pluralidade de pensamentos, vidas e experiências que existe dentro da escola. Trata-se de um debate sempre importante e urgente, pois, quando um estudante não consegue se encontrar no mundo social descrito pelos professores, é como se ele não existisse. E se ele não existe, estudar para quê? Portanto, falar de diversidade é construir um ambiente fértil para o aprendizado e é, ainda, um mecanismo para evitar a evasão escolar.

Em julho, tivemos uma Live Fique Bem super produtiva sobre diversidade. Contudo, dada a extensão e a complexidade do assunto, decidimos realizar um novo encontro, agora em setembro, focado em uma das tantas perguntas levantadas quando falamos em diversidade na educação: afinal, a escola está pronta para lidar com as questões LGBTQIA+?

LIVE: LGBTQIA+ NA ESCOLA

Para falar sobre esse assunto nada simples, chamamos dois convidados para a nossa primeira live de setembro: Leonardo Café e Carú de Paula. Carú é uma pessoa transgênero, que atua na psicologia, se aventura na poesia e se compromete com um mundo melhor a partir do ativismo LGBTQIA+. Por sua vez, Leo é um gay professor (reforça a ordem do termo, pois é primeiro gay e depois se fez docente), escritor, linguista, que atua na área de formação de profissionais da educação nos eixos de Direitos Humanos e Diversidades. Um encontro impactante! 

“O que nos gera sofrimento não é a nossa existência. É um mundo que implica certas coisas à nossa existência”, diz Carú, que atua na Acolhe, uma plataforma que já conectou mais de 1400 pessoas LGBTQIA+ que precisavam de acolhimento psicológico com profissionais que toparam ajudá-las de forma voluntária. “O que a gente tem que ficar negociando é a própria vida. E a escola é o primeiro lugar onde encontramos essas violências. Eu só estou tentando dar conta da minha existência e dos próximos”, continua Carú.

“A escola é um espaço potente, mas também é um campo de opressão. Ou seja, ela produz, reproduz, mantém e propaga discursos. Discursos que se retroalimentam fora da escola”, aponta Leonardo. “Tem problema ser um homem-cis-hetero-branco-cristão? Não. Mas a questão é que esse é apenas um dos recortes da nossa existência, um dos discursos. Cadê os outros?”, provoca.

“Queira ou não, o discurso sempre é racializado e sexualizado. A gente tenta apagar as contradições, mas as contradições são importantes. A escola tenta apagar essas contradições, mas precisava era ressaltá-las. Elas têm que vir à tona para a gente conseguir criar um contradiscurso que vai para fora da escola. Uma mudança discursiva impacta e produz uma mudança social”, ensina o professor que se encontrou na análise do discurso.

Na conversa com essas duas feras, percebemos que, talvez, a escola não saiba as respostas corretas para lidar com questões LGBTQIA+ porque, até hoje, muitos de nós não tínhamos feito as perguntas certas. Por exemplo, ao invés de nos perguntarmos como lidar com uma criança que, desde cedo, traz sinais de transgeneridade, por que não nos questionamos se isso é, de fato uma incongruência? Quem disse que ser cisgênero é o natural?

“O quanto a gente permite que uma criança seja uma criança, sem antes implicar um gênero nelas? Em algum momento se dividiu a experiência de estar vivo do ser humano com o resto do que é vivo na terra. Nessa lógica de mundo, esse dito humano, supostamente universal, se manifesta de uma só maneira, a maneira certa. Porém, esse movimento de dividir o que é viver da maneira certa e errada é muito danoso”, relembra Carú.

 

Sabemos que o assunto pode ser — ou parecer — espinhoso para muitos de nós, professores. Somos diversos e, enquanto alguns são familiarizados com essas discussões, outros ainda não tiveram esse contato. Tudo bem. Mas lembre-se que esse é um assunto necessário para a construção de um ambiente seguro e saudável de aprendizado, para professores e alunos. Logo, o nosso convite vem desse lugar de carinho: dê o play no vídeo, reflita a cada fala e busque aprender com quem vivencia as questões LGBTQIA+. Você não vai se arrepender!

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Como preservar a saúde mental e
cultivar a 
resiliência

“Ter saúde mental é ser flexível igual a um bambu e, além disso, ser como um copo bem furadinho”. A frase é do querido Dudu — coordenador da Revista Fique Bem e apresentador das nossas lives no Youtube — mas resume muito bem o papo que tivemos com a nossa convidada para a segunda Live Fique Bem de setembro, a Dra. Larissa Zeggio. Não entendeu bem esse resumo? Calma, que já vamos te explicar!

LIVE: RESILIÊNCIA EM TEMPOS DE PANDEMIA

A professora e psicóloga Larissa — que coordena o curso de especialização em Neuropsicologia Clínica do CENSUPEG e dirige o Instituto Brasileiro de Inteligência Emocional e Social— conversou com a gente e o Dudu por uma hora, na segunda semana desse mês, trazendo um discurso extremamente didático, simples e carregado de metáforas, para explicar um pouquinho a importância da resiliência para a nossa saúde emocional.

“O autocuidado diz respeito a um conjunto de habilidades e ações que podem ajudar a adaptar a força da nossa resiliência para que possamos lidar com os desafios do dia a dia”, começou a psicóloga. “É como se fôssemos um bambu, que enverga mas não quebra. Por mais que os ventos batam, sejam eles brandos ou fortes, precisamos nos manter inteiros. Não temos a opção de controlar a força dos ventos, mas podemos controlar a nossa rigidez. Resiliência é o conceito de ser flexível”, conclui.

Durante a conversa, a especialista reforçou ainda a necessidade de sermos alfabetizados em emoções: sabermos identificá-las, entendermos quais as suas funções biológicas e termos a habilidade de reagir a elas. “Temos que entender o que estamos sentindo e saber para que serve cada uma dessas emoções. O que normalmente isso que eu estou sentindo quer dizer para o ser humano?”, ensina ela. “Primeiro, devemos conhecer o que cada emoção tem de função, conversar com ela, entendê-la nessa situação específica, e, só então, refletir sobre quais as ações que podemos tomar para lidar com ela, o que está ao nosso alcance”, pontua Larissa.

Além disso, a psicóloga nos ensinou os conceitos de fatores de risco e fatores de proteção. Você conhece essa terminologia? Em resumo, fatores de risco são os ventos que sopram no nosso bambu, forçando seus troncos a envergarem. Os fatores de proteção, por sua vez, são como furinhos em um copo plástico que o impedem de transbordar. São eles quem vão colaborar para fortalecer a nossa resiliência, mantendo o bambu intacto, como as redes de apoio, o contato com a natureza, com amigos, habilidades sociais, habilidades de resolver problemas… e o mais importante dos fatores de proteção: o autocuidado. 

“É possível ter uma boa saúde emocional e isso não significa estar feliz o tempo inteiro, mas parte disso começa com o autocuidado”, diz a especialista. Larissa ainda reforça que autocuidado é uma higiene mental, daquelas que não demandam água, sabão ou alcool gel. “É cuidar de si mesmo, mais simples que parece”, conta a psicóloga que, durante o nosso encontro, nos apresentou seu livro publicado —  e doou cinco e-books. 

Veja o vídeo completo desse encontro, entenda as funções das emoções básicas do ser humano e, com leveza, saiba como reagir na próxima vez que uma emoção não tão agradável cruzar o seu caminho. No papel de fator de proteção para os professores, nós do Fique Bem desejamos que você seja um bambu bem resistente e um copo cheio de buraquinhos. 

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Reforçando as diferenças entre bullying racismo

 

Professor, querido, você já presenciou algum caso de bullying na sua sala de aula? O que você fez durante e depois do episódio? Essa é a primeira pergunta que vem à cabeça dos professores, quando citamos esse assunto na escola. Contudo, temos aqui uma pergunta nova para você, professor: quando houve esse episódio, você chegou a refletir se o que aconteceu foi bullying ou se foi um caso de racismo?

VÍDEO: BULLYING É DIFERENTE DE RACISMO

Na terceira semana do mês de setembro, o Fique Bem elaborou e publicou um vídeo voltado a esse assunto, inspirado em um texto da nossa colunista sobre racismo, a professora Lorena Bárbara Santos Costa.

No vídeo, que foi publicado em formato de animação tanto no nosso Youtube quanto no nosso Instagram, são levantadas as principais diferenças entre o bullying e o racismo, de uma maneira super didática, texto simples e linguagem direta.

O Fique Bem espera que vídeos como esse ajudem os professores a tratarem do assunto com seus alunos, mesmo com os mais novinhos. Afinal, a escola ideal não admite nem casos de bullying e nem casos de racismo em sua comunidade.

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Colunas

FEMINISMO

Por que a escola precisa conversar sobre a cultura do estupro com estudantes?

 
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Gina Vieira Albuquerque

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Ceilandense, professora da educação básica no DF há 29 anos. Mestra em Linguística, especialista em Desenvolvimento Humano, Educação e Inclusão Escolar e em  EAD. Autora do Projeto Mulheres Inspiradoras.

Em 2016, o Brasil se mostrava estarrecido com a notícia de que uma jovem de 16 anos tinha sido vítima de um estupro coletivo na zona oeste do Rio de Janeiro. Além de estuprá-la, enquanto ela estava sob efeito de álcool, os seus agressores, incluindo o namorado, gravaram as imagens, divulgaram nas redes sociais e não tiveram o menor constrangimento de filmar os seus próprios rostos. Entre eles, havia a certeza da impunidade e a nítida demonstração de profundo desprezo pelas mulheres, traduzido no desprezo por aquela menina.

 

Mais recentemente, no final de setembro, uma cena similar voltou a chamar a atenção do país. Desta vez, em um reality show, uma mulher visivelmente fora de si, com o estado de consciência profundamente alterado pelo uso do álcool, foi, no mínimo, importunada sexualmente com a permissividade da emissora que transmitia tudo, e tendo o poder de impedi-lo não o fez, e com a conivência das pessoas que estavam presentes naquele quarto. A única palavra para isso é inadmissível. Não vou entrar no mérito quanto ao tipo de violência e crimes praticados, se houve importunação sexual ou estupro, com conjunção carnal, porque cabe às autoridades policiais investigarem o caso.

Pelo nível de civilidade e de informação que atingimos, todos deveríamos saber que se uma mulher está alcoolizada, ao ponto de sequer conseguir caminhar sozinha, e de discernir o que acontece em seu entorno, beijá-la, tocá-la, ter relações sexuais com ela é estupro, é crime e tais atos devem ser punidos dentro do devido processo legal. A lei, inclusive, não deixa dúvidas: O Código Penal Brasileiro, em seu artigo 215, diz: "ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima" é “violação sexual mediante fraude".

A despeito disso, em matéria recente publicada na página do UOL, as advogadas Isabela Lourenço e Júlia Granado, especialistas em direito das mulheres fizeram uma análise de sentenças e decisões judiciais e mostraram como esta crença de que, se uma mulher foi estuprada enquanto estava alcoolizada, a culpa é dela, compõe também, decisões proferidas por juízes. Em uma destas decisões, um juiz do Rio Grande do Sul afirma: “se a ofendida bebeu por conta própria, dentro do seu livre arbítrio, não pode ela ser colocada na posição de vítima de abuso sexual pelo simples fato de ter bebido.”

Em 2016, sob o calor do estupro coletivo daquela menina de 16 anos, no Rio de Janeiro, aqui já mencionada, testemunhei uma conversa entre adolescentes, com idade entre 13 e 17 anos, em que eles diziam que se estivessem presentes na cena do estupro, não perderiam tempo e também participariam da “brincadeira”, porque se a menina bebeu, ela estava procurando por isso.

Diante de todos estes fatos, é preciso pensar: se a ideia de que uma menina ou uma mulher merecem ser estupradas porque estão alcoolizadas aparece na narrativa de um grupo de homens que não só estupraram uma menina de 16 anos, mas transformaram este estupro em espetáculo para ser consumido, ao gravá-lo e expô-lo nas redes sociais, se esta ideia aparece também no comportamento de um participante de reality show, bem como na atitude da emissora que produz o reality, e na postura dos demais participantes, que diante do inadmissível assistiram a cena sem tomar uma atitude mais contundente que pudesse impedi-la, mais ainda, se esta crença é materializada na sentença de juízes que culpabilizam as vítimas de estupro, que estavam sob efeito de álcool, se esta mesma ideia compõe os discursos de jovens de 13 anos que disseram que, se estivessem na cena do estupro, no lugar de impedi-lo, participariam da “brincadeira”, nós precisamos destacar o quanto as crenças, os discursos e as práticas que coisificam, desumanizam, objetificam e desprezam as mulheres não são um fenômeno individual, mas estrutural, social, constituem aquilo que chamamos de cultura do estupro. A revista eletrônica digital QG Feminista afirma que: a cultura do estupro só é possível porque existe a hierarquia entre os sexos e porque, atrelada a essa hierarquia, estão papéis sociais. E ambos — a hierarquia e os papéis sociais — se prestam a manter, a reproduzir e a alimentar a estrutura em que estão inseridos: o patriarcado.

Para impedir que o patriarcado siga operando como esse sistema de opressão e poder, orientado por uma lógica perversa que diz que mulheres não são pessoas, mas propriedades dos homens, que podem violentá-las, com a certeza de que não serão punidos, é necessário mudar profundamente a nossa cultura, as nossas crenças, os nossos discursos. É preciso dizer para os meninos, desde cedo, que o poder que o machismo lhes confere, de violar os corpos das mulheres, baseados na crença de um suposto direito a não renúncia sexual, ou seja, de que podem, mais do que isso, têm o direito de dar vazão aos seus desejos sexuais a qualquer custo, ainda que isso corresponda a cometer crime de estupro, é um poder destrutivo, tóxico, baseado em masculinidades adoecidas.

Para romper com este ciclo perverso, baseado em uma profunda assimetria de poder entre homens e mulheres, a escola tem um papel fundamental. Ela tem acesso privilegiado aos estudantes - pode ouvi-los atentamente, acessar o que pensam e sentem sobre o que acontece ao seu redor e, a partir destas percepções, propor diálogos que os auxiliem na construção do pensamento crítico e no desenvolvimento de repertório para rechaçar a cultura do estupro e promover a cultura do respeito e da equidade entre homens e mulheres.

Esta é uma tarefa da qual a escola não pode se furtar se o que ela deseja é promover uma formação integral, cidadã, democrática e emancipadora. Mas é importante destacar que educação não se promove só na escola. É fundamental, também, que as grandes mídias repensem os seus papéis e firmem o compromisso de não coadunarem direta ou indiretamente com a cultura do estupro. Se estuprar uma mulher alcoolizada é crime, obter audiência transmitindo esse estupro também deveria ser. Produzir imagens que naturalizam e espetacularizam o estupro de mulheres é uma maneira de seguir promovendo tecnologias de gênero que alimentam a cultura do estupro.

RACISMO

A literatura infantil na construção da identidade da criança e a educação para as relações étnico-raciais

 
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Lorena Bárbara Santos Costa

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Professora da rede pública municipal dos municípios de Salvador e Lauro de Freitas (BA). Pedagoga pela UFOP e Pós-graduada em Psicopedagogia e em Pobreza e Desigualdade Social. Mestranda em Educação de Jovens e Adultos- UNEB.

Quantos livros com personagens negros você leu na sua infância? Quantos livros com a temática racial seus  filhos conhecem ou já leram? A escola dos seus filhos trabalha com a literatura negra para promover o respeito às diferenças e o engajamento na luta contra o racismo?

Pensar sobre essas questões nos ajuda a perceber o quanto, durante muito tempo, a cultura negra foi silenciada e ficou excluída dos cânones literários. Com o engajamento dos movimentos sociais na luta contra o racismo, vários escritores e escritoras negros passaram a ter suas obras visibilizadas e, hoje em dia, já podemos encontrar muitas histórias que contam a história e cultura dos povos africanos e afrodiaspórico, assim como a literatura afrofuturista, que projeta o negro como protagonista de suas próprias histórias e o rompimento com as condições de opressão, marginalização e subalternidade que o povo negro foi submetido ao longo dos séculos.

Os estudantes negros e afrodescendentes precisam conhecer as histórias que valorizem os seus ancestrais, seu grupo étnico, sua cultura e sua estética corporal. Ter acesso a outras narrativas voltadas à valorização da cultura africana, através da literatura infantil, possibilita à criança conhecer outras rainhas e reis, outras princesas e príncipes, outras heroínas e heróis, assim como outras cosmologias.

No Brasil, com a implementação da Lei.10.639/03, vários livros com a temática africana vêm ocupando cada vez mais espaços nas salas de aulas para contribuir com a educação antirracista. O acesso à literatura negra desperta nas crianças o senso crítico, estabelece um diálogo entre as diferentes culturas, quebrando paradigmas eurocêntricos enraizados em nossa sociedade.

Durante muito tempo, apenas os “contos clássicos”, eram as histórias valorizadas na literatura infantil. Acontece que histórias como Branca de Neve, Rapunzel, Cinderela, Pequeno Príncipe, A Bela e a Fera e tantas outras não representam a diversidade étnica e cultural do nosso país e ainda contribuem para reforçar os estereótipos preconceituosos da estética e cultura hegemônica brancocêntrica.

Conforme a escritora nigeriana Chimamanda Adichie, em seu livro, O Perigo de uma história única:” Histórias importam. Muitas histórias importam. Histórias têm sido usadas para expropriar e ressaltar o mal. Mas histórias podem também ser usadas para capacitar e humanizar. Histórias podem destruir a dignidade de um povo, mas histórias também podem reparar essa dignidade perdida”. Sendo assim, a autora nos alerta sobre o perigo de tornar apenas uma história como única e exclusiva fonte verdadeira, pois, para ela, é preciso ouvir e conhecer outras histórias e pontos de vista diferentes sobre uma mesma história.

Uma educação antirracista precisa ser construída coletivamente com o apoio da equipe pedagógica, da gestão escolar, da família e da comunidade. Dessa forma, sugerimos que a família e a escola estimulem desde cedo o contato das crianças com a literatura negra, a fim de contribuir com uma educação para as relações étnicos-raciais.

A seguir algumas sugestões de livros e sites para aprofundarmos o nosso debate:

Livros:

  • Os Contos de Fadas na Perspectiva Afro-baiana- Maria Izabel Muller

  • Bucala a pequena princesa do quilombo do Cabula- Davi Nunes

  • Ensina-me sobre Garvey- James Wilson

  • Aú o Capoeirista e o Fantasma do Farol- Flávio Luiz

  • Angola Janga- Marcelo D´Salete

  • Calu uma menina cheia de histórias- Cássia Vale

  • O Conto dos Orixás- Hugo Canuto

  • Igbo e as Princesas- Marcus Cajé

  • O Menino de Asas Invisíveis- Ricardo Ishmael

  • Amoras- Emicida

  • O Pequeno Príncipe Preto- Rodrigo França

  • Meu crespo é de Rainha- bell hooks

  • O Black Power de Akin- Kiusam de Oliveira

  • HQ Pantera Negra- TA-NEHESI COATES

  • HQ Província Negra- Kaled Kanbour

Sites:

Referências:

JOVINO, Ione da Silva. Literatura infanto-juvenil com personagens negros no Brasil. In. SOUZA, Florentina e LIMA, Maria Nazaré (Org). Literatura Afro-Brasileira. Centro de Estudos AfroOrientais, Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006.

PEDAGOGIA DO ENCANTO

Os desafios e os prazeres do trabalho em grupo

 

Flávia Pereira Lima

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Formada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa e doutora em Recursos Naturais do Cerrado pela Universidade Estadual de Goiás. É professora no Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação da Universidade Federal de Goiás. Seu maior desejo: que suas alunas e seus alunos compreendam a beleza de ler e explicar o mundo por meio do conhecimento científico.

O trabalho em grupo é desafiador em qualquer fase da vida. Pessoas diferentes, com conhecimentos, habilidades e histórias distintas, precisam trabalhar juntas para alcançar o produto almejado. Mas até chegar a ele... Muita troca de ideia, conflito, disputa de interesses. Também muita aprendizagem que emana desse caldeirão que é trabalhar e aprender coletivamente.

Reconheço o enorme potencial dessa atividade na escola, mas ela me inquieta: Será que é de fato aconteceu um trabalho coletivo ou foi desenvolvido por apenas algumas pessoas? Houve imposição ou diálogo das diferentes propostas? Foi meramente seguir as instruções que eu indiquei? Será que eu intervi muito? Como mediar os conflitos que surgem diante do trabalho? Crianças conseguem de fato trabalhar em grupo?

 

Analiso que o trabalho em grupo esteve menos presente do que eu gostaria nas minhas aulas e o motivo é a minha insegurança criada por essas e tantas outras questões. Por outro lado, tenho experiências de atividades em grupo riquíssimas, nas quais as meninas e os meninos se engajaram ativamente para resolver um problema proposto. Remédio para a minha insegurança é estudo e, nesse caso, foi realizado com a leitura do livro “Planejando o trabalho em grupo” de Elizabeth G. Cohen e Rachel A. Lotan.

 

De cara, o livro traz a seguinte definição: “Este livro define trabalho em grupo da seguinte forma: alunos trabalhando juntos em grupos pequenos de modos que todos possam participar de uma atividade com tarefas claramente atribuídas. Além disso, é esperado que os alunos desempenhem suas tarefas sem a supervisão direta e imediata do professor.”

Eu fiquei impactada ao ler este trecho. Tem tanta coisa aí! Destaco duas delas:

  • Alunos trabalham juntos em grupos pequenos.

Ao recordar dos trabalhos em grupo que eu participei, percebo um padrão: o trabalho fluiu melhor em grupos menores. Grupos grandes emperravam ou a gente acabava dividindo as tarefas e cada um fazia uma parte.

O trabalho conjunto é um pilar do trabalho em grupo proposto por Cohen e Lotan. Nele, os participantes precisam uns dos outros e discutem sobre os caminhos a serem tomados. O grupo está debatendo ideias, bolando estratégias e tomando decisões coletivas? Parece que temos efetivamente um trabalho coletivo em andamento.

As autoras sugerem, a partir de muitos anos de pesquisas científicas, que grupos com quatro ou cinco participantes funcionam melhor. Em grupos muito pequenos, com três pessoas, há grande chance de uma ser deixada de lado. Em grupos grandes, com seis ou mais pessoas, o contato visual fica comprometido e aumenta a possibilidade de alguém ficar isolado, seja por dificuldade na interação ou mesmo por falta de vontade. Não vejo isso como uma regra absoluta, e ninguém melhor do que o professor para entender a sua turma, mas penso que vale a pena ter em mente que grupos menores trabalham melhor.

  • Alunos realizam as tarefas sem a supervisão direta e imediata do professor.

Isso significa delegar e confiar. Nós precisamos planejar as atividades criteriosamente e entregá-las ao grupo. Mas a partir daí, o trabalho é dos estudantes. É preciso respeitar os caminhos tomados por eles. Não há intervenção para prevenir o erro; aliás, se aprende muito com ele. Cabe a nós professores a orientação, a mediação dos conflitos, a observação e o registro escrito (porque não dá para contar somente com a memória) do comportamento de cada participante do grupo, e a avaliação do processo e do produto final

 

Ao longo do livro as autoras exploram as diversas dimensões do trabalho em grupo, sem esconder os dilemas e dando orientações de como planejar e conduzir essa proposta pedagógica. Se você, colega professora e professor, assim como eu, percebe os desafios do trabalho em grupo, sugiro fortemente estudar esse livro. Ao final também coloquei a sugestão de um vídeo com a professora Lotan.

 

Essa perspectiva de trabalho em grupo propõe uma sala de aula colaborativa, na qual há respeito e responsabilidade compartilhada. Então não é de uma hora para outra que um trabalho em grupo bacana acontece, não é? É um processo, construído com diálogo entre professores e alunos, com reflexão e o entendimento que se aprende muito e sobre muitas coisas com os outros.

 

De fato, o trabalho em grupo exige tempo para planejá-lo, implementá-lo e avaliá-lo. Mas penso que o investimento vale a pena! Temos nessa estratégia uma das possibilidades de se promover na escola uma aprendizagem muito além dos conteúdos, que também mobiliza habilidades sociais e emocionais tão necessárias para enfrentar os problemas complexos da nossa sociedade.

Referências:

Cohen, E. G. e Lotan, R. A. Planejando o trabalho em grupo: estratégias para salas de aulas heterogêneas. Porto Alegre: Penso, 2017.

Vídeo: Como fazer trabalho em grupo em salas de aulas heterogêneas. Canal do Instituto claro.

COMPAIXÃO NA ESCOLA

Compaixão: um ingrediente ético essencial

 

Eduardo Pacifico

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Fundador e Diretor da ONG Gaia+. Ecólogo, mestre e doutor em Ciências Ambientais, criou e realizou projetos de habilidades socioemocionais com milhares de crianças e professores em todo o Brasil.

Valentin Conde

Coordenador de projetos no Instituto Sidarta, professor de práticas contemplativas para a infância, Pedagogo formado pela PUC-SP e mestre em ciências da religião com ênfase em estudos budistas pela Fo Guang University de Taiwan. Pós-graduado em Gestão Emocional nas Organizações pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein.

Em nossa última coluna, falamos sobre a interdependência como parte central de nossas vidas. Em um ambiente educador essa percepção fica ainda mais amplificada. Professoras, estudantes, famílias e equipes... São muitas pessoas envolvidas nesse processo em relações de trocas intensas. Porém, sentir-se parte de uma rede gigantesca de seres, causas e efeitos, pode parecer assustador às vezes. Quando dependemos de alguém e somos desapontados, por exemplo, ou quando nos deparamos com injustiças, é possível que o sentimento de decepção rapidamente se transforme em raiva. E a raiva, dependendo da forma como é aplicada e comunicada, pode ser muito destrutiva. Como podemos contribuir para a sustentação dessa rede de forma proativa e saudável?

Quando estamos envolvidos em redes de cuidado complexas, como uma comunidade educativa, é comum vivenciar emoções desagradáveis. Quem nunca sentiu raiva ao se desapontar com alguém em quem confiávamos? Enquanto resposta emocional, a raiva representa a percepção de que existe um obstáculo entre nós e nossas necessidades e, logicamente, queremos remover esse obstáculo. Em uma sala de aula compassiva, por exemplo, um comportamento de bullying pode ser percebido como um obstáculo para o cultivo da compaixão e diante dele é possível que o educador sinta raiva do estudante agressor. Situações de injustiça costumam produzir muita raiva naqueles que possuem um senso de justiça aguçado.

Mas como podemos navegar em uma realidade interdependente e ao mesmo tempo tão incerta e muitas vezes injusta aos nossos olhos? Sabemos que, para diferentes males, existem diferentes antídotos. Se uma criança se machuca brincando no parque, é preciso ajudá-la a lavar a ferida e depois fazer um curativo para evitar outros traumas. Esse tipo de resposta acaba se tornando intuitiva para nós. Porém, o que poucos sabem é que, quando tratamos de feridas emocionais, o princípio é o mesmo. Existem antídotos para cada uma delas, que podem ser aplicados e utilizados para reduzir os danos de certas experiências traumáticas. No caso da raiva, um excelente antídoto é a compaixão. Segundo Matthieu Ricard, um grande pesquisador na área do comportamento humano, a compaixão pode ser entendida como o encontro do amor de alguém com a dor de outro alguém. A compaixão surge como preocupação ativa em relação à dor do outro e um desejo genuíno de reduzir ou eliminar esse sofrimento.

A compaixão não serve como ferramenta para alienação. Não deve nos levar à indiferença ou à apatia em relação às injustiças sociais. Sentir raiva, inclusive, nem sempre é algo ruim. Segundo o Professor Elie Weisel, um sobrevivente dos campos de concentração da 2ª Guerra Mundial e ganhador do Nobel da Paz, essa raiva é também conhecida como um estado de bravura moral que é muito importante para a superação de injustiças e crueldades. Tal forma de raiva pode nos ajudar a canalizar nossa coragem, tornando-nos ativistas das causas mais importantes para o bem comum. Contudo, Elie Weisel chama a atenção para aquilo que é ainda mais radical e revolucionário: o cultivo da amorosidade. Segundo o Weisel, a bravura moral deve ser equilibrada com a amorosidade, pois essa nos mantém abertos para nossos sentimentos e para os sentimentos dos outros. Quando cultivamos bravura moral e amorosidade podemos encontrar a compaixão, diz o professor. Essa compaixão é a liga perfeita que une nossas vidas interiores com a vida comunitária aqui fora.

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O que vem por aí

Anote as datas das próximas Lives do Fique Bem na sua agenda.

05 de outubro

17h30 a 18h30

Vamos brincar? Outubro: o mês da brincadeira

13 de outubro

17h30 a 18h30

O cérebro e a pandemia