Quem canta os seus males espanta? Bom, sabemos que, para espantar alguns males contemporâneos, só mesmo a vacina. No entanto, a música pode sim nos ajudar a passar por essa fase tão complicada das nossas vidas. Afinal, arte que é, ela nos ajuda a modular o nosso humor e a nos expressar melhor. Qual é o artista que você mais tem escutado nos últimos tempos?

Neste mês, fizemos uma live com professores que usam a música como ferramenta pedagógica — seja com bebês de zero a sete anos de idade, seja com adolescentes que estão cumprindo medidas socioeducativas.

 

Além disso, no decorrer dessa revista, você vai conhecer projetos encantadores, de professores que sabem o poder de uma canção na sala de aula. 

 

Contudo, não dá para ser um professor inspirador se a sua saúde mental não estiver em dia. Por isso, falamos com uma psiquiatra incrível, que nos explicou, com detalhes, como lidar com sentimentos difíceis e ainda nos contou um segredinho precioso: as duas estratégias infalíveis para se proteger contra qualquer doença do mundo!

Prontos para darmos início ao espetáculo? Não se esqueçam ainda de ler os textos dos nossos colunistas, que, mais uma vez, dançaram conforme a música do mês e trouxeram produções quentíssimas para a nossa comunidade de professores.

 

Vem dançar com a gente! [O convite é figurativo, mas nada te impede de levantar da cadeira e sacudir o esqueleto por aí, enquanto você se delicia com essa revista. Dizem que atividade física com os colegas é antiinflamatório, então vamos descobrir juntos].

Um beijo

Professora Fique Bem

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A Música como ferramenta pedagógica

Até pode existir, mas que difícil seria encontrar alguém que não gosta de ouvir nenhum estilo musical! Tem ritmo que toca o nosso coração, álbuns que nos trazem lembranças, sons que nos fazem querer dançar, canções que nos inspiram e até podemos dizer que as músicas modulam o nosso humor. Mas e se, além disso tudo, elas também fizessem parte da nossa rotina na escola?

LIVE: MÚSICA NA ESCOLA

No início deste mês, o Fique Bem realizou um encontro ousado, entre dois profissionais que usam a música como ferramenta pedagógica. Apesar de integrarem universos totalmente diferentes — um lida com jovens do sistema socioeducativo e outra trabalha com crianças do primeiro setênio —  ambos falam a mesma língua: a linguagem universal da música.

Eleito em 2020 um dos melhores professores do mundo, o professor Francisco Celso é o mentor intelectual do Projeto RAP (Ressocialização, Autonomia e Protagonismo) no Distrito Federal. Neste projeto, ele usa o rap como pretexto para discutir temas transversais — como sustentabilidade, diversidade e direitos humanos — com jovens em situação de privação de liberdade que estejam cumprindo medidas socioeducativas.

O professor conta que, apesar de não ser musicista  —  e confessar não ter o menor talento para cantar — foi DJ quando tinha 12 anos e sempre gostou muito de ouvir música. Segundo ele, por volta dos 15 anos de idade, em uma aula de Geografia, sua professora na época usou o Rap da Felicidade para engajar os alunos em uma aula sobre desigualdade social. 

O episódio marcou tanto a sua memória que, depois de formado em História e pronto para ser professor, Francisco não hesitou em usar as músicas como ferramentas pedagógicas. “A linguagem artística toca muito mais o coração dos outros que um discurso eloquente”, afirma ele, que optou pelo rap, devido o contexto social dos seus alunos.

Nossa segunda convidada foi a professora Cris Barone, criadora e idealizadora da Escola Harmonia de musicalização infantil. Há 26 anos na área, a professora encanta as pequenas e os pequenos de até sete anos de idade, introduzindo-os ao mundo ritmado.

 

A professora afirma que, desde pequena, estuda música. Porém, só descobriu a musicalização infantil como a sua paixão mais tarde, quando começou a lecionar. De acordo com ela, muitos fonoaudiólogos, pediatras e até psicólogos encaminham crianças e bebês para sessões de musicalização, na busca de facilitar a expressão e estimular a comunicação dos pequenos. 

 

A live de uma hora passou rápida demais, mas foi o suficiente para que todos que a acompanharam tivessem uma visão clara do trabalho dos convidados e, muito provavelmente, se encantassem pelos dois. Para Francisco, inclusive, encantar em tão pouco tempo é uma rotina. Afinal, elaborar uma aula para o sistema socioeducativo é muito diferente de elaborá-la para o sistema escolar. Por ser muito rotativo, conta ele, o professor precisa tocar a turma em um único encontro.

Francisco não é rapper, mas entende e defende a importância do ritmo musical. Segundo o professor, privados de liberdade, seus alunos passam por um cruel silenciamento da voz e do corpo, o que é quebrado com o microfone aberto e as atividades que promove. “O rap é significativo no contexto que eu estou. Quem faz o projeto RAP não é o professor Francisco, são os jovens, os adolescentes”, comenta. “Eu não tô fazendo nada, eles que estão fazendo, eu só estou mediando”, completa.

 

Com as crianças pequenas, embora o trabalho seja bem diferente, Cris afirma que, no contexto da pandemia, muitas coisas não cabem mais na aula, mas os pequenos também estão com a necessidade de contar as coisas, de se expressar, de compartilhar o que vivem e o que sentem. “As crianças estão precisando desse momento para se expor, para falar”, alerta. 

 

No vídeo completo com a live, além de toda a troca de experiências, você vai encontrar uma atividade de percussão superdivertida com a professora Cris e um videoclipe gravado pelos jovens alunos do professor Francisco. O encontro está imperdível! Assista, se encante, cante e se expresse. 

Quem sabe a música não é a ferramenta pedagógica que estava faltando para você e seus alunos?

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Saúde Mental dos professores

Você acredita que uma pessoa que sofre de depressão possa ser considerada uma pessoa com uma boa saúde mental? Se a sua resposta foi não, talvez você ainda não tenha assistido à nossa live de saúde, que rolou na segunda semana deste mês, lá no Youtube do Fique Bem.


No encontro, a psiquiatra Thays Mello nos explica que, diferente do que prega o senso comum, o expectro psicológico é formado por duas variáveis: a qualidade de saúde mental e a presença ou ausência de doença. 

LIVE: SAÚDE MENTAL E EMOCIONAL DOS PROFESSORES

Ou seja, é possível uma pessoa ser diagnosticada com uma doença mental e, em tratamento, ter uma ótima saúde mental. Por outro lado, é possível também que uma pessoa nunca tenha tido um diagnóstico clínico, mas também não cuide da sua saúde mental como deveria e, por fim, acaba vivendo no “automático”. Conhece alguém assim?

A psiquiatra Thays Mello é nascida no Mato Grosso, mãe da pequena Amelie, de 6 anos, e pautou o nosso encontro em uma máxima: se você souber dar o nome para o que você está sentindo, a chance de você se organizar para lidar com esse sentimento é muito maior. A partir dessa ideia, a psiquiatra reforça que ter um diagnóstico de doença mental, por exemplo, é libertador, pois direciona os nossos esforços para a solução do problema. 

“Dar o nome àquilo que a gente está sentindo é o que vai no ajudar a nos organizar. Dar o nome é o que possibilita a ajuda adequada”, explica. Segundo ela, quando você sabe o que tem, é mais fácil de procurar o apoio necessário, além de nos fazer sentir mais compreendidos e menos culpados.

 

O papo com a Thays durou um pouco mais que uma hora e passou por temáticas como a depressão, os efeitos da pandemia na saúde psicológica, o burnout e ainda a sensação de desalinho. 

 

“A depressão é uma doença biológica. Ela é definida como uma tristeza ou falta de prazer, que vem acompanhada por alterações de sono, de alimentação e de cognição”, afirma Thays. “A depressão hoje, segundo a OMS, já é a principal causa de afastamento do trabalho”, continua. Por causa da pandemia, é possível que você já tenha sentido muitos dos sintomas depressivos, mas o importante é entender o quanto esses sintomas têm impactado a sua vida.

 

E, se você acha que sabe tudo sobre saúde mental, responda a essa pergunta: quais são as duas estratégias que nos protegem de absolutamente qualquer doença do mundo? Em geral, as pessoas respondem atividade física (o que está correto) e algo como alimentação ou sono. Mas a real segunda estratégia é nada menos que ter bons relacionamentos. Como diz a Thays, “saber que você pode contar com alguém é antiinflamatório”.

 

E aí, você sabe com quem contar ou passou por um processo de esvaziamento da sua rede de apoio durante a pandemia? Conte para a gente nos comentários, assista ao vídeo completo e não se esqueça: caso haja dúvidas quanto à gravidade do que você está sentindo, procure ajuda. A gente costuma falhar mais no receio do que no excesso e, para saúde mental, ajuda nunca é demais.

Selo
de prof 
para prof

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Projetos com Música

Não são poucos os professores que inventam uma rima ou aproveitam alguma canção que já existe para fazer seus alunos decorarem alguma matéria. Mas existem alguns professores que vão muito além disso e realmente passam a usar a música como ferramenta pedagógica constante. Confira, no vídeo abaixo, como os professores da rede Fique Bem desenvolveram projetos acadêmicos inspiradores e cheios de ritmo.

Esse vídeo foi publicado na terceira semana do mês no nosso Youtube e é o quarto da nossa série “De Professor Para Professor”, na qual damos espaço para docentes divulgarem projetos autorais relacionados à temática do mês.

Musicalização infantil

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Sônia Onuki

Cubatão (SP)

A professora Sônia desenvolve desde 2010 o Projeto de Musicalização da Prefeitura Municipal de Cubatão - SP. A ideia é utilizar a música de forma integral para a educação infantil, nas creches municipais.

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Colunas

FEMINISMO

 

Como uma educação comprometida com a igualdade entre meninos e meninas pode nos ajudar a enfrentar e combater o abuso sexual de crianças e adolescentes?

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Gina Vieira Albuquerque

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Ceilandense, professora da educação básica no DF há 29 anos. Mestra em Linguística, especialista em Desenvolvimento Humano, Educação e Inclusão Escolar e em  EAD. Autora do Projeto Mulheres Inspiradoras.

Na coluna deste mês vamos conversar sobre o dia 18 de maio, Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e de Adolescentes. O dia foi estabelecido em referência ao assassinato da menina Araceli Crespo, ocorrido em 18 de maio de 1973. Quando tinha 8 anos de idade, a criança foi sequestrada, estuprada e morta por dois homens de uma família influente no Espírito Santo. 


No Brasil, a cada 15 minutos uma criança ou um adolescente é vítima de crime sexual. Como discutimos na coluna do mês passado, os altos índices de crimes sexuais no Brasil têm relação com a produção de uma cultura do estupro, ancorada em masculinidades tóxicas, que desde a infância educa os homens para a não renúncia sexual. Mas, há outros pontos nos quais precisamos nos aprofundar para entender como uma educação antissexista e pela igualdade entre meninos e meninas pode ajudar na prevenção e no enfrentamento aos abusos sexuais de crianças e adolescentes. 
 

Na cultura sexista e machista em que todos vivemos, das meninas se espera o silêncio, a subalternização, a obediência, a docilidade e o recato. Mas, além disso, as meninas são educadas para servir ao outro e para agradar. Como nos lembra Zanello, ao citar Bordo (1997) nós, mulheres, “somos convocadas a mover-nos por amor, a mover montanhas por amor, mas para que os nossos esforços beneficiem a outras pessoas”, ou seja, desde a infância, nós, mulheres, somos educadas para um “hetero-centramento, diferentemente dos homens, cujo processo passa pelo o auto-centramento, tornam-se ego-cêntricos, egoístas”. (Zanello, 2028, p.354)
 

Neste sentido, a escritora Chimamanda destaca que a educação que ensina as meninas a sentirem-se menores e subalternizadas aos meninos, e que as educa a sempre ignorar os próprios sentimentos para privilegiar o bem-estar do outro é perfeita para torná-las vítimas dos seus abusadores. É imperativo educar as meninas para erguerem as suas vozes, para se insurgirem a quaisquer tentativas de silenciar a sua expressão e a sua força. É urgente educar os meninos para masculinidades contra-hegemônicas. 
 

Para combater o abuso sexual de crianças e adolescentes de forma sistêmica e organizada precisamos de políticas públicas intersetoriais, integradas, um trabalho realizado em rede e com intencionalidade que envolva o Estado, a família, a escola e a sociedade civil como um todo.  Aldenora Moraes nos lembra que: “dialogar e orientar a criança sobre o comportamento sexual apropriado a protege dos agressores sexuais.

A educação sexual adequada, de acordo com o desenvolvimento e compreensão da criança, não estimula a sexualidade, mas capacita a criança e o adolescente a compreender as mais diversas situações que podem envolver o abuso” (Moraes, 2020, p.67). 
 

Os responsáveis pela segurança e pela proteção de crianças e adolescentes somos nós, os adultos. Todos,  todas e todes, em alguma medida, podemos contribuir para o trabalho de prevenção e enfrentamento ao abuso sexual de crianças e de adolescentes. O que você, a sua comunidade, a escola em que você atua, a sua igreja, têm feito sobre este assunto?

 

Indicações de leitura:

Tudo o que você precisa saber para prevenir e enfrentar o abuso sexual de crianças e adolescentes - Aldenora Moraes;

Saúde Mental, Gênero e Dispositivos - Cultura e Processos de Subjetivação - Valeska Zanello;

Sejamos todos feministas - Chimamanda Ngozi Adichie

RACISMO

 

A farsa do ato piedoso da Princesa Isabel na abolição da escravatura brasileira

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Lorena Bárbara Santos Costa

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Professora da rede pública municipal dos municípios de Salvador e Lauro de Freitas (BA). Pedagoga pela UFOP e Pós-graduada em Psicopedagogia e em Pobreza e Desigualdade Social. Mestranda em Educação de Jovens e Adultos- UNEB.

O dia 13 de maio é uma data que simboliza para o povo negro mais um dia de combate ao racismo. As falácias que se constitui em torno dessa data tem caído por terra e isso se deve ao fato de que a então imagem da “piedosa” Princesa Isabel ter assinado a Lei Áurea, para pôr fim a escravidão que durou mais de trezentos anos, não foi verdadeira.

 
A historiografia acerca da benevolência da Princesa Isabel vem sendo discutida e reescrita. Negar a luta do movimento negro pelo fim da escravidão é uma afronta às memórias daqueles e daquelas que derramaram seu sangue pela emancipação do seu povo.

 

A história nacional construída acerca do 13 de maio sempre foi uma farsa construída pela Branquitude para preservar os seus privilégios e poder com a tutela do Estado, por isso se constitui no imaginário da população brasileira que a abolição só ocorreu devido a bondade da princesa, que deu a tão sonhada liberdade para o povo negro. 
 

De fato, a princesa Isabel assinou a lei Áurea, mas baseada na decisão do Parlamento Monárquico que pressionado pelos movimentos abolicionistas, diversos levantes insurgentes negros, fugas de escravos, pressão popular, pressão da Inglaterra em abolir o trabalho escravo para acelerar o processo de industrialização nas Américas e com isso expandir seu capital, dentre tantas outras questões que a deixaram sem saída. 
 

O fim do regime escravocrata foi conquistado com muita luta, suor e sangue derramado em inúmeros levantes. Dentre alguns destaco: a Balaiada, a Sabinada, a Revolta dos Malês e a Revolta dos Jangadeiros. Além dos levantes insurgentes, o aquilombamento foi também uma estratégia muito utilizada como resistência ao regime opressor escravocrata, a exemplo do Quilombo dos Palmares, liderado por Zumbi dos Palmares e Dandara.
 

O fim da escravidão não garantiu aos negros o acesso aos direitos sociais e políticos, nem tão pouco o acesso à saúde e à educação, à moradia e ao lazer. As suas cidadanias continuaram negadas e mutiladas. Após a abolição, a massa negra sem ocupação, sem moradia, sem rumo e com fome, deixou de ser escravizada para ser considerada como bando de “vagabundos”, levando o Estado a criar inclusive a Lei da Vadiagem em 1890, para criminalizar o negro e a sua cultura.
 

Em 1850, o Estado brasileiro aprovou a Lei de Terras, que impedia a concessão de terras brasileiras aos ex-escravos, o que demonstra que a exclusão e marginalização do povo negro sempre foi um plano de governo. Diferente do tratamento dispensados aos imigrantes europeus que vieram para o Brasil com promessas de terras, empregos e moradias, o povo negro nunca teve nenhum tipo de apoio governamental ou reparação histórica. 
 

Passados 133 anos, que foi oficializado a abolição no Brasil, ainda hoje, o povo negro busca reparação histórica e continua lutando pelo direito de existir. A falta de políticas públicas para a superação da desigualdade entre negros e brancos refletem nos seguintes dados de acordo o IBGE: 56% população brasileira se declara como negra e parda, no  entanto, desse total, são os negros/negras 75% das pessoas assassinadas em operações policiais, 67% da população encarceradas no Brasil, 64% dos desempregados, 47,3% ocupam o trabalho informal (contra 35% das pessoas brancas), 24% é a taxa de representatividade na política, 61% dos casos de feminicídio são de mulheres negras e pela primeira vez na educação superior em instituições púbicas os negros são 50,3% dos estudantes.
 

O Estado brasileiro sempre foi omisso com as questões dos direitos do povo negro. As políticas públicas sempre foram excludentes e nunca pensadas para melhorar a vida da população negra que construiu esse país.
 

Vale destacar que nunca houve aceitação da escravidão pelo povo negro. Cada gota de sangue derramado de negros e negras até hoje nos inspiram a continuar a Luta pelo fim do racismo estrutural em nossa sociedade.
 

Referências:

ALBUQUERQUE, Wlamyra de. A exaltação das diferenças: racialização, cultura e cidadania negra (Bahia, 1880-1900). 2004. 247 f. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. 
 

IBGE. Estatísticas do site. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/disseminacao/online/estatisticas/metodologia_antiga.ph p. Acesso em 5 maio. 2021.

PEDAGOGIA DO ENCANTO

 

A investigação na sala de aula

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Flávia Pereira Lima

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Formada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa e doutora em Recursos Naturais do Cerrado pela Universidade Estadual de Goiás. É professora no Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação da Universidade Federal de Goiás. Seu maior desejo: que suas alunas e seus alunos compreendam a beleza de ler e explicar o mundo por meio do conhecimento científico.

Sherlock Holmes, Hercule Poirot, Miss Marple, Tintim, Rabugento, Bugiganga, Sol, Pippo e Bento (os detetives do Prédio Azul). Por gerações, detetives fascinam crianças e adultos em livros, filmes, séries e desenhos animados. Durante as investigações, esses profissionais observam, coletam pistas e analisam até obterem uma resposta. O que não falta é emoção na vida dos detetives!

A investigação pode estar na sala de aula, porque emoção combina demais com aprender, concorda? Você, colega professor, deve ter se deparado com a abordagem investigativa na BNCC, mas especificamente na disciplina de Ciências. 
 

Podemos compreendê-la como uma abordagem pedagógica na qual os estudantes se apropriam de métodos e práticas próprios das ciências para construírem o conhecimento. É uma abordagem que se baseia na resolução de problemas e que permite o desenvolvimento de diversas habilidades para isso*.

 

Quero discutir aqui quatro aspectos desse conceito. Primeiro, trata-se de uma abordagem pedagógica que estrutura o processo de aprender em fases, à semelhança de uma pesquisa científica: 1. A orientação: momento de estimular a curiosidade da turma e no qual o problema é estabelecido; 2. A conceitualização: etapa na qual as perguntas de pesquisa são formuladas e as hipóteses elaboradas; 3. A investigação: planejamento, coleta e análise dos dados; 4. Conclusão: conclusões são elaboradas e comparadas às hipóteses; 5. Discussão: processo de comunicação e reflexão sobre as descobertas*.

 

O segundo ponto é a apropriação de métodos e práticas das ciências. Apropriar é adaptar, reelaborar, não meramente replicar. Nunca foi meu objetivo formar pequenos cientistas capazes de realizar experimentos com maestria a partir de instruções determinadas. Pelo contrário! Na abordagem investigativa a criatividade e a diversidade dos métodos são valorizadas. A observação, o experimento, a leitura, a mensuração de variáveis são procedimentos a serem utilizados. Um equívoco frequentemente associado à investigação é que ela deve ser, necessariamente, experimental. Nada disso! É possível coletar dados para testar uma hipótese por meio da leitura de textos e análise de gráficos, por exemplo.

 

O experimento tem um poder de envolver a turma e gerar discussões incríveis (no futuro escreverei sobre isso) mas não é condição necessária para o trabalho investigativo. Com as crianças, preciso dar suporte na fase de coleta e dados, oferecendo textos e material experimental, por exemplo. Mas com os adolescentes dos Anos Finais e Ensino Médio a investigação pode se dar com mais autonomia, sempre, claro, com a mediação efetiva do professor. 

 

O terceiro aspecto é que a investigação é uma abordagem ativa na construção do conhecimento. Respostas não são dadas, conceitos não são transmitidos. O processo é fundamentalmente participativo e promove a aprendizagem ativa. Todo o percurso gera aprendizagens de conceitos, habilidades, procedimentos. Tanto se aprende conteúdos quanto a respeitar os diferentes caminhos e respostas.

 

O quarto ponto é o papel da resolução de problemas. Os problemas podem ser de natureza prática, por exemplo, “O que fazer para se economizar água na escola?” ou de natureza teórica “Por que nem toda folha é verde?”. O potencial integrador de trabalhar com os problemas é enorme: diferentes conteúdos das mais diversas disciplinas podem ser requeridos, assim como permite-se o desenvolvimento de habilidades próprias da resolução de problemas. Não é difícil perceber como essas habilidades saltam facilmente do contexto escolar para o cotidiano dos alunos.

 

A abordagem investigativa não é exclusividade da disciplina Ciências. Todas as demais disciplinas escolares podem recorrer aos métodos científicos próprios da área para a investigação em sala de aula. No CEPAE/UFG o ensino da Matemática se dá pela investigação, com resolução de problemas, hipóteses e tudo mais! Colegas da Língua Portuguesa frequentemente falam em “hipóteses da escrita” e neste ano as professoras do segundo ano dos Anos Iniciais realizaram um lindo projeto com as “Cartas Investigativas”. É a investigação por toda parte!

 

Não é por acaso que introduzo a proposta investigativa nas aulas de Ciências comparando o nosso trabalho em sala aula ao trabalho do detetive. Se ele ou ela (porque também temos mulheres detetives) tem um mistério a resolver, nós temos um problema para investigar! Se o/a detetive tem suposições, nós elaboramos as hipóteses. Se ele/ela recolhe as pistas, nós coletamos os dados por meio da leitura, da observação, do experimento. Assim como o profissional, analisamos os dados e chegamos a uma conclusão que vai ou não corroborar a nossa hipótese.

 

E a pergunta que não quer calar: dá para fazer a investigação numa sala de aula com poucos recursos didáticos? Dá sim! Tem que fazer em todas as aulas? Tem não! Posso afirmar que nem sempre, ao trabalhar um conteúdo de Ciências, consigo realizar todas as fases da investigação, mas a essência da abordagem ainda está lá, no problema, na hipótese e na investigação, na minha postura como professora. É tão interessante como a investigação entra no cotidiano da sala de aula, ao ponto de fazer parte do vocabulário das crianças. Mas vamos pendurar essa conversa no cabide que ela ainda rende muito mais.

 

Referências:

*Pedaste, M. et al. Phases of inquiry-based learning: Definitions and the inquiry cycle. Educational Research Review, v. 14, 2015.

COMPAIXÃO NA ESCOLA

 

Começando com quem mais importa…

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Eduardo Pacifico

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Fundador e Diretor da ONG Gaia+. Ecólogo, mestre e doutor em Ciências Ambientais, criou e realizou projetos de habilidades socioemocionais com milhares de crianças e professores em todo o Brasil.

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Valentin Conde

Coordenador de projetos no Instituto Sidarta, professor de práticas contemplativas para a infância, Pedagogo formado pela PUC-SP e mestre em ciências da religião com ênfase em estudos budistas pela Fo Guang University de Taiwan. Pós-graduado em Gestão Emocional nas Organizações pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein.

Em quem você pensou quando leu o título?

Se pensou em você, sentiu vergonha por isso?

 

Nosso objetivo é que, ao final do texto, você pense em você com a consciência mais tranquila e o coração mais leve.

 

Imagina a seguinte situação: uma amiga querida fala de algo inadequado, de um erro que acabou de cometer. Como você reage? Você vai culpá-la, dizendo palavras duras? Ou ouve com atenção, acolhe e ajuda a superar? Sabemos que a primeira opção não configura sequer uma amizade. Nos resta a segunda opção, a aceitação e o amor.

 

Mas e se a gente trocar o sujeito dessa situação? E se essa pessoa que cometeu um erro for você? Como você se trataria? É rude e impiedoso, ou acolhedor e compassivo?

 

Imagine que você recebeu uma crítica da coordenação. O que sua voz interna fala para você? 
 

1. Você é incompetente e não faz nada direito. Errou de novo! Melhor desistir… 
 

2. A culpa é da coordenação. Ninguém me ajuda em nada.
 

3. Essa tem sido uma semana desafiadora. Vamos com calma. Você está chateada(o) e tudo bem. Que tal tomar um bom banho, conversar com alguém querido, esfriar a cabeça e depois resolver a situação com nossa rede de apoio?

 

Sem dúvida a melhor opção, para sua saúde física, mental e emocional, é a opção 3. E não somos apenas nós que dizemos isso. A ciência tem comprovado a eficácia da autocompaixão repetidas vezes. Um dos grandes nomes da pesquisa nessa área é Kristin Neff, psicóloga e especialista em desenvolvimento moral.

 

Seus estudos têm comprovado que a atitude de autocompaixão pode aumentar nosso bem-estar e eficiência, diminuindo a ruminação negativa (pensamentos repetitivos) e o estresse.

Mas cuidado! Autocompaixão não é sobre ter pena de si mesmo (autopiedade) e nem fazer tudo que dá na telha (autoindulgência). Também não é sobre pensar só em si mesmo (autocentramento) ou sobre comparações e como somos avaliados (autoestima). A autocompaixão é sobre sermos genuinamente gentis com nós mesmos. Esse tipo de gentileza tem 3 aspectos:
 

Autobondade - autoaceitação e autocuidado.Todos os nossos sentimentos e emoções surgem de necessidades genuínas e do desejo fundamental de sermos felizes, dessa forma é preciso acolher-se e cuidar de si.
 

Humanidade Compartilhada - reconhecemos que, assim como todos os outros, temos defeitos, qualidades e necessidades.
 

Atenção consciente - repousamos nossa consciência gentilmente em cada situação, momento a momento, evitando apegar-se demais aos julgamentos e mentalidades fixas.

E como seria se pudéssemos integrar essa qualidade às nossas rotinas de sala de aula? 

O fato é que ninguém dá aquilo que não tem. Se não tivermos amor para com nós mesmos, não poderemos oferecer isso para o mundo. Se você se sentir bem, vai poder ser sua melhor versão e contribuir para o florescimento do mundo.

Ser autocompassivo pode ser um grande desafio, ainda mais numa sociedade tão materialista e competitiva. Mas se utilizarmos as ferramentas que falamos acima, poderemos nos conectar com essa qualidade: 
 

Eu noto que estou sendo duro demais comigo mesmo (atenção consciente)
 

Entendo que essa não é uma tarefa fácil para ninguém (humanidade compartilhada) Diante disso, aceito e acolho as minhas imperfeições (autobondade). 

Pronto! A partir dessa perspectiva, esse desafio fica mais factível!

É tempo para nos despirmos da culpa, que só nos atrapalha e de vestirmos uma roupa confortável e cheia das cores que amamos. Afinal, a gente merece!

Referências:

Meeting Suffering With Kindness: Effects of a Brief Self-Compassion Intervention for Female College Students - Elke Smeets, Kristin Neff, Hugo Alberts and Madelon Peters

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O que vem por aí

Anote as datas das próximas Lives do Fique Bem na sua agenda.

01 de junho
Circo

08 de junho
Saúde mental e educação: um diálogo necessário