Somos apenas crianças crescidas, não é mesmo? Adultos, fomos moldados, em grande parte, pela infância e pela adolescência que tivemos. Somos corpos humanos que carregam questões pessoais, angústias, lembranças, alegrias e paixões, e que, em algum momento da vida ,  deixaram o exclusivo lugar de aluno para também assumirem a docência. 
 

Digo isso para refletir sobre o nosso papel na sala de aula. Seriam os professores os senhores da razão? De forma nenhuma. Somos sim capacitados a usar o método científico para construir argumentos, ler o mundo, compartilhar o que aprendemos. E ainda temos muito a aprender. Seja sobre a vida, sobre o planeta em que habitamos, sobre nós mesmos.


No mês de março, o Fique Bem falou sobre ciência e meio ambiente. Discutimos o tema com especialistas e conhecemos projetos incríveis que abordam o assunto. Além disso, conversamos com uma psiquiatra super didática, que nos ajudou a entender um pouco mais sobre a saúde mental na infância e na adolescência.
 

Prontos para revisitar suas origens? Na edição desse mês, convidamos todos os professores a olharem para si, como parte de uma colmeia e também como indivíduos, crianças amadurecidas. Que esse passeio te encante e te provoque, e que, ao fim dessa leitura, estejamos ainda mais juntos e fortes. 

Um beijo,

Professora Fique Bem

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Qual a importância da Ciência?

Plantar feijão, entender a força da gravidade, nomear os planetas e saber por que a gente solta pum! Afinal, qual a importância de se ensinar ciência nas escolas? As crianças são curiosas por natureza, mas como encantar e motivar essa galerinha a partir da abordagem científica? Essas foram algumas das várias perguntas que orientaram o nosso primeiro encontro do mês de março.

LIVE: CIÊNCIA E MEIO AMBIENTE NA ESCOLA

Participaram do bate-papo as professoras Janaína Freitas Calado - doutora em Ecologia, que leciona Educação Ambiental na UEAP - e Flávia Pereira Lima - professora no CEPAE da UFG e responsável pela coluna Pedagogia do Encanto, aqui na Revista Fique Bem. Além delas, o encontro contou com a presença do nosso querido mediador Eduardo Pacífico e do biólogo Paulo De Marco Jr, mestre e doutor em Ecologia pela Unicamp e professor de Ecologia na UFG.


Os especialistas versaram sobre a importância de tratar a ciência e o meio ambiente na sala de aula, em todos os momentos de aprendizagem, desde a educação básica, até o ensino superior. Para a professora Flávia, que trabalha com os anos iniciais do Ensino Fundamental, ensinar ciência para crianças é ensiná-las a lerem e a compreenderem o mundo. 
 

Ela ainda ressalta a beleza e o encantamento que vê no conhecimento científico e conta seu segredo para criar aulas dinâmicas que despertem o interesse dos estudantes. "Sempre me faço duas perguntas: 'por que meu aluno precisa aprender isso?' e 'eu queria ser aluna dessa aula?'. Afinal, se nem eu mesma me encantar pelo tema, como vou poder encantar o outro?", aponta.

Por sua vez, a professora Janaína afirmou que seu trabalho como professora se assemelha ao de outro profissional. "Em educação ambiental, temos que fazer o povo ver o que ele não está vendo. Eu digo que a gente não ensina, a gente faz um trabalho de tradutor. A gente traduz o que está acontecendo ali e eu fico muito feliz de fazer isso", explica.

E você já parou para refletir como ensinar ciência na escola é ainda mais urgente nos dias de hoje? Em tempos de negacionismo, em plena pandemia, o pensamento crítico se faz indispensável. "O que a gente está vendo hoje é uma enxurrada de fake news, então ensinar ciência na escola é uma forma de ensinar a pensar o mundo pelas habilidades e práticas de conhecimento da ciência", comenta Flávia. "A ciência tem um conjunto de ferramentas que nos permite fazer generalizações e construir o pensamento crítico", completa a professora.


Sob o olhar de quem trabalha com o ensino superior, Paulo, professor de Ecologia da UFG,   construiu seu argumento com base no trabalho científico. "Eu preciso criar uma situação problema, na qual o aluno possa desenvolver suas habilidades racionais, e eu tenho que reconhecer que o aluno é um aluno. Ou seja, ele não tem que desenvolver todas as habilidades imediatamente, ele tem um prazo, tem todo o ensino fundamental, para que isso seja construído", comenta.
 

"Para isso, a educação tem que ser mais que libertadora, no sentido em que eu não posso chegar com a solução e eu preciso garantir que ele chegue a conclusões diferentes da minha, pois estamos em uma sociedade democrática", complementa. "Agora, o método é que tem que ser um método que valorize as evidências existentes. Então, eu não posso convencer meu aluno, só porque eu estou falando e só porque o que eu estou falando parece ser muito lógico. É preciso que haja evidências, que nós chamamos de evidências científicas", completa.


Quer acompanhar essa conversa por inteiro? Dê o play e se prepare! A conversa está inspiradora!

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Saúde Mental da infância e adolescência

Aqui no Fique Bem, nós sempre falamos sobre a saúde mental dos professores, mas o bem-estar dos nossos alunos também é muito importante. Em tempos de pandemia, todos nós estamos vulneráveis e as crianças também sofrem. O que você sabe sobre a saúde mental na infância e na adolescência?

No segundo encontro que fizemos no mês de Março, recebemos a nossa querida Dra. Loraine Martins. Médica, psiquiatra e especialista em saúde mental de crianças e adolescentes, Loraine também é mãe e, com toda essa bagagem acadêmica, profissional e de vida, nos trouxe um olhar riquíssimo sobre o tema. 

LIVE: SAÚDE MENTAL DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

Você saberia descrever o que define uma criança saudável? Para a especialista, são necessários três fatores: a criança precisa ter condições mínimas de vida, receber afeto e ter a oportunidade de brincar — de preferência, com outras crianças. 

Para reforçar seus argumentos, Loraine nos contou uma história emocionante, sobre uma criança que ela conheceu durante a sua vida profissional. Em meio a um depoimento tocante, a doutora diz como esse menino, longe da mãe mas auxiliado por um abrigo, passou a ter melhores condições de vida — em relação à higiene e alimentação — mas não estava 100% saudável, pois lhe faltava o afeto. Mais tarde, ele reencontra sua mãe e a situação muda totalmente. Esse momento da live é imperdível.

“O que vai construir um alicerce para essa criança recuperar, eventualmente, coisas que ficaram falhas no desenvolvimento dela, é esse afeto da mãe. É essa mãe que olha pelo filho, que cuida, que ama. Aqui eu estou usando o exemplo de mãe, mas nem sempre é uma mãe. Às vezes é um avô, é um vizinho, é uma tia. E, às vezes, são os professores”, argumenta a psiquiatra. “É essa figura de um adulto que entrega afeto, que olha, que cuida, que se preocupa, que dá um sorriso em um momento em que essa criança está em uma situação difícil”, complementa.

A médica diz ainda que acredita que o que fundamenta a vida das crianças é esse suporte afetivo. “O resto, ele vai precisar. Mas ele vai ter condições de conquistar todo o resto, se ele tiver esse suporte de uma vida afetiva bem construída na infância e na adolescência”, conclui, pontuando sempre como o afeto, em seu ver, é mais importante que as estruturas. 

 

A nossa convidada falou sobre diversos assuntos durante a nossa uma hora de conversa. Loraine explicou como lidar com o retorno às aulas presenciais, como os professores podem ajudar a cuidar da saúde mental dos alunos de maneira remota e, principalmente, reforçou que, por mais que o trauma da pandemia seja grande, o que pode adoecer as crianças é a ausência de suporte. 

 

Mas, e quando o professor não está bem? 

 

A especialista recomendou que, em primeiro lugar, os professores se cuidem, para depois cuidar dos seus alunos. “Isso serve para todos os profissionais que lidam com pessoas, e o professor trabalha com muitas pessoas, muitos têm cerca de 100 alunos sob a sua alçada”, lembrou ela. Além da prevenção ao dano, se necessário, o professor deve buscar um auxílio psiquiátrico.

Assista à live completa para entender tudo sobre esse assunto e, inclusive, descobrir como as crianças costumam demonstrar seus sofrimentos, desde o nascimento até a adolescência. Você sabe em qual idade o corpo da criança mais reage às emoções? Descubra também se roer unhas, ter mudança no apetite ou ainda parar de cumprir as demandas da escola são motivos para uma atenção extra aos seus alunos. Confira!

Selo
de prof 
para prof

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Projetos com Ciência e Meio Ambiente

Trabalhar ciência e meio ambiente na escola é essencial. Contudo, certas atividades que alguns professores desenvolvem nessa área merecem destaque. É muita criatividade e muita mão na massa, com projetos acadêmicos de tirar o fôlego! No vídeo abaixo, conheça alguns projetos de ciência desenvolvidos pelos professores da rede Fique Bem.

Esse vídeo foi publicado na terceira semana do mês no nosso Youtube e é o segundo da nossa série “De Professor Para Professor”, na qual damos espaço para docentes divulgarem projetos autorais relacionados à temática do mês. 

Pequenos Cientistas, Grandes Descobertas

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Lorena Bárbara

Salvador (BA)

Projeto desenvolvido na Bahia, voltado à celebração e à divulgação da vida e da obra de diversos cientistas e pesquisadores negros e negras.

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Colunas

FEMINISMO

 

Tecnologias de Gênero - como elas podem impactar a aprendizagem e o desenvolvimento de crianças, adolescentes e adultos na escola?

Gina Vieira Albuquerque

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Ceilandense, professora da educação básica no DF há 29 anos. Mestra em Linguística, especialista em Desenvolvimento Humano, Educação e Inclusão Escolar e em  EAD. Autora do Projeto Mulheres Inspiradoras.

O nosso papo de hoje aqui na coluna é um aprofundamento da nossa conversa anterior. Vamos falar sobre Tecnologias de Gênero para entender como elas impactam o desenvolvimento e as aprendizagem dos estudantes e como a escola pode construir projetos político-pedagógicos atentos a uma agenda antissexista. Para falar sobre Tecnologias de gênero, precisamos refletir sobre algumas questões: Como nos tornamos as pessoas que nos tornamos? Como as nossas emoções, afetos e imaginários são construídos? Como a nossa autoimagem e a nossa autoestima são formadas? Diferentes campos do conhecimento como a Psicologia, a Antropologia, as Ciências da Educação apontam que os nossos sentimentos, emoções e afetos não são construções individuais. A Psicologia Histórico-Cultural nos lembra que somos sujeitos sociohistóricos, nos tornamos pessoas na nossa relação com o mundo - nossa família, a escola, a comunidade onde vivemos. Essas relações são constituídas, nutridas e pautadas pela cultura da qual fazemos parte. E o que eu chamo de cultura aqui é tudo o que nós produzimos como formas simbólicas de atuar, representar, incidir e interagir no mundo.

Entender cultura nessa perspectiva é fundamental para compreender sobre o que estamos falando quando discutimos Tecnologias de Gênero. Quem discute esse conceito é Teresa de Laurettis. Ela define Tecnologias de gênero como esses vários modos simbólicos que fazem parte da cultura e que cumprem o objetivo de definir papeis, performances e atribuições diferentes para homens e mulheres, a partir de uma perspectiva binária. Envolvem, por exemplo, brinquedos, que sugerem que as meninas devem ocupar o espaço doméstico e exercer exclusivamente a maternidade, vislumbrar o casamento como único projeto de vida, e aos meninos oferecem possibilidades de serem super heróis, engenheiros, astronautas, cientistas, jogadores de futebol. Também são Tecnologias de Gênero os contos de fada que representam as mulheres como princesas frágeis, sem protagonismo e os homens como príncipes salvadores de quem as mulheres dependem para obter a sua felicidade. Comédias românticas, novelas, comerciais de televisão, desenhos infantis, músicas, filmes, todos esses produtos culturais podem estar a serviço de promover relações entre homens e mulheres marcadas por assimetrias, ou seja, marcadas pela crença em uma suposta superioridade dos homens em relação às mulheres, e marcadas, também, pela negação de outras possibilidades identitárias que transcendam o paradigma binário heterossexual homem/mulher.

 

O fato de as meninas viverem em uma cultura em que elas são subalternizadas, objetificadas, desumanizadas e que as colocam, desde antes do nascimento, como seres de segunda categoria, em relação aos homens, traz impactos em relação a como essas meninas se percebem, traz prejuízos à sua autoestima e, portanto, traz desdobramentos para a sua aprendizagem e para o seu desenvolvimento. O fato de pessoas que não se enquadram nessa lógica binária (homem e mulher) viverem dentro de uma cultura que sequer reconhece a sua existência, que só lhes reserva espaços marcados por estigmas e estereótipos dentro das representações culturais, promove uma cultura de violência contra esses grupos dentro da escola e faz com esses estudantes sintam-se acuados e impedidos de exercer o seu pleno potencial.

 

A escola precisa ser um espaço de promoção de relações democráticas, pautadas pela celebração da diversidade que nos constitui. Na escola real, onde eu atuo há quase 30 anos, trabalhei com alunos e alunas diversos, tive alunos gays, lésbicas, trans, intersexuais e vi de perto como esses estudantes são ignorados ou alijados da escola. Vi dezenas de situações em que as meninas sofriam violências por parte de colegas e até de professores e eram obrigadas a conviver com a conivência e o silêncio da escola em relação a essas situações. As Teorias Críticas e Pós-Críticas do Currículo nos mostram que a aprendizagem no espaço escolar não é um processo neutro, e que para compreendê-lo em toda a sua amplitude e complexidade precisamos estar atentos não só a categorias como avaliação, didática, objetivos e planejamento, mas abordar, também, em nossos projetos político- pedagógicos, questões ligadas à identidade, alteridade, diferença, subjetividade, cultura, poder, raça, etnia, gênero, sexualidade.

 

Se todos nós desejamos que as nossas escolas trabalhem comprometidas com a garantia da aprendizagem dos e das estudantes, se como parte disso, nós desejamos que a escola se constitua em um espaço de fortalecimento da democracia, a partir da proposição de práticas e vivências pedagógicas democráticas, precisamos nos comprometer com uma agenda educacional antissexista, uma agenda educacional que celebre a diversidade. Não há opção de formação pedagógica de qualidade fora da democracia e não há educação democrática sem a celebração e o respeito à diversidade.

 

Pensando em tudo isso, que tal, da próxima vez que a sua escola for falar sobre elaboração de Projetos Político- Pedagógicos você propor uma reflexão sobre Tecnologias de Gênero? Que tal propor que a sua escola invista em formação de docentes que os ajude se qualificar em relação a esses temas? Podemos começar nos lembrando que estamos em ano de Olimpíadas e que a história sempre privilegiou a atuação dos homens nesses grandes eventos esportivos. Já pensou em promover um projeto pedagógico para resgatar a história de mulheres no esporte? Você conhece, por exemplo, a história de Aída dos Santos, única brasileira, mulher negra, a participar das Olimpíadas de Tóquio, em 1964? Ela teve um desempenho extraordinário, apesar de não receber nenhum apoio do Comitê Olímpico Brasileiro. Nesse mês em que comemoramos o Dia Internacional das Mulheres, deixo aqui como sugestão que você que leu a coluna dessa semana conheça a história da Aída dos Santos e se inspire nela.

 

Para quem quiser aprofundar as reflexões que propusemos aqui, sugiro as seguintes leituras:

 

Documentos de Identidade - uma introdução às teorias do currículo, de Tomaz Tadeu da Silva, editora Autêntica

Tecnologias de Gênero - Artigo de Teresa de Laurettis.

RACISMO

 

A discriminação da mulher negra no mercado de trabalho

Lorena Bárbara Santos Costa

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Professora da rede pública municipal dos municípios de Salvador e Lauro de Freitas (BA). Pedagoga pela UFOP e Pós-graduada em Psicopedagogia e em Pobreza e Desigualdade Social. Mestranda em Educação de Jovens e Adultos- UNEB.

No dia oito de março é celebrado o Dia Internacional das Mulheres. A data faz referência a um acidente que ocasionou um incêndio em 1911, na Triangle Shirtwaist Company em Nova York, matando 146 pessoas, sendo 125 mulheres operárias. A data foi institucionalizada pela ONU, na década de 70, para legitimar a luta das mulheres contra a violência, a opressão e a luta por igualdade de direitos e condições de trabalho.

 

Acontece, que apesar da data ser uma data importante para refletirmos sobre a condição da mulher na sociedade ela não representa as mulheres negras, Isso porque é uma data que generaliza a condição da mulher na sociedade e romantiza o papel feminino.

 

Para que a data contemple de fato o dia Internacional da mulher, percisamos refletir sobre as diversas mulheres que existem no mundo e as oportunidades que lhe são dadas.

 

Que mulheres são referenciadas no dia 8 de março?

 

As mulheres que sempre tiveram privilégios garantidos na sociedade ou aquelas que lutam para sobreviver na sociedade que as excluem cotidianamente?

 

Precisamos de uma data que reflita as condições das mulheres negras, indígenas, brancas, ciganas, africanas, quilombolas, mulheres trans, homossexuais, bissexuais e tantas outras categorias.

 

Uma data que surge para contrapor o 8 de março é o dia 25 de julho. A data é considerada como o Dia da Mulher Negra, Latina e Caribenha. A data foi instituída no I Encontro De Mulheres Afro-latinoamericanas e Afro-caribenhas em 1992 na República Dominicana como uma data para homenagear todas as mulheres negras que lutaram e lutam até hoje contra todas as formas de exploração, racismo e opressão.

 

No Brasil, desde 2014, a presidente Dilma Rousseff, instituiu por meio da Lei. nº 12.987, o dia 25 de julho como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, homenageando uma das principais líderes quilombola que viveu durante o século 18, no quilombo Quariterê, em Mato Grosso.

 

As mulheres negras representam 27,8% da população brasileira, são a maior força de trabalho, porém ainda com baixa representatividade nas áreas das Ciências, da Política, da Magistratura, das Engenharias por exemplo.

 

No mercado formal apenas 8% das mulheres ocupam cargo de liderança em grandes empresas ou são donas do próprio negócio.

 

De acordo com a Consultoria Indique uma Preta e a Box1824, em outubro de 2020, foram evidenciados os resultados da pesquisa (In)visíveis sobre a realidade da mulher negra no mercado de trabalho, que aponta as dificuldades da mulher negra para acessar o mundo do trabalho formal, serem reconhecidas pelo papel desempenhado, a falta de qualificação profissional e os impedimentos para o crescimento profissional na carreira. Outro fator que chama a atenção é a diferença salarial que aponta que a mulher negra ainda ganha menos que o homem branco, a mulher branca e o homem negro mesmo desempenhando as mesmas funções.

 

Quando o assunto é trabalho doméstico remunerado, as mulheres negras são 68% as que mais desempenham as atividades de faxineira, babá, cuidadora de idoso, cozinheira, arrumadeira, lavadeira, diarista, arrumadeira, etc. de acordo o Observatório do Terceiro Setor. Tal realidade está vinculada aos resquícios da escravidão no nosso país, em que as mulheres negras sempre desempenharam as funções domésticas na casa grande e cuidavam dos filhos dos seus senhores. O que poucos sabem, é que as mulheres negras foram as primeiras empreendedoras, foram elas as mulheres que saiam com seus tabuleiros na cabeça para vender seus quitutes e produtos inclusive para comprar alforrias de seus entes queridos.

 

Atrelado a falta de oportunidades as mulheres negras no mercado de trabalho, tem-se percebido que muitas tem sido empurradas pela vulnerabilidade social em que se encontram para a criminalidade. Hoje, 68% das mulheres encarceradas no Brasil são negras, segundo o Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITCC), a maioria delas são mães e que foram presas por tráfico.

A luta por melhores condições de trabalho e acesso ao mercado formal para as mulheres negras deve ser uma política pública, como forma de reparação e combate ao racismo estrutural em nossa sociedade. Hoje em dia temos mulheres negras brilhantes nas mais diversas áreas, mas, que ainda precisamos conhecê-las e dar visibilidades aos seus trabalhos.

PEDAGOGIA DO ENCANTO

 

Pelo brilho da chama

Flávia Pereira Lima

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Formada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa e doutora em Recursos Naturais do Cerrado pela Universidade Estadual de Goiás. É professora no Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação da Universidade Federal de Goiás. Seu maior desejo: que suas alunas e seus alunos compreendam a beleza de ler e explicar o mundo por meio do conhecimento científico.

Quem acendeu um fogão à lenha sabe que é preciso soprar para o fogo pegar. Fogo precisa de
oxigênio para seguir vigoroso. E para nós, professoras e professores, qual é o oxigênio para fazer
brilhar a chama nos olhos das meninas e dos meninos?


Para mim, é a curiosidade!


Curiosidade pode ser definida como “o desejo de novos conhecimentos, informação,
experiência ou estímulos para resolver lacunas de conhecimento ou experimentar o desconhecido
1”.
Portanto, curiosidade passa pela vontade de aprender. Passa também por identificar a insuficiência
do conhecimento. Ou, ainda, que há um mundo inteiro, macroscópico e microscópico, a ser
descoberto. A curiosidade pode ser um traço da personalidade. Há pessoas mais propensas em ser
curiosas, como percebemos em sala de aula. Mas ela também pode ser despertada por estímulos
ambientais e é aqui que o nosso sopro pode agir.


É nosso dever estimular a curiosidade dos nossos alunos, sejam crianças, adolescentes, jovens
ou adultos. Para isso, é necessário orientar a nossa prática para a pergunta que incentiva a busca por
respostas e, consequentemente, gera aprendizagem, como defendem Paulo Freire e Antonio
Faundez
2 . Até pode parecer simples, mas essa orientação exige mudança na postura do professor.
Mas mudanças, a gente bem sabe, precisam de dedicação e vigilância.


Claro que cada professor vai construir, reelaborar, ressignificar – como queira chamar – a
orientação para a pergunta a partir da sua história. Eu sempre fui uma professora que buscou uma
ativa participação dos alunos em aula, perguntando e ouvindo as questões levantadas. Mas, por
muito tempo, centralizei o conhecimento em mim e lá estava eu, explicando e entregando os
conceitos. Olhando para trás parece que eu estava equivocada, mas fazendo um exercício de
generosidade, entendo que eu fazia o melhor naquele momento. A partir de reflexões, estudos e
conversas com meus colegas, novas ideias e práticas foram surgindo. A primeira mudança foi
entender que eu não era a senhora do conhecimento. Costumo brincar com meus alunos que eu não
sou Google, aliás, o buscador tem muito, mas muito mais informação do que eu. Uma prática que
adotei foi responder perguntas com outra pergunta. Se uma menina me pergunta “Por que a planta eu
verde?” eu devolvo para turma “Todas as plantas são verdes, ou existem plantas de outras cores?”.
Pergunta por cima de pergunta estimula o florescer do conhecimento.

Mas não dá para parar na pergunta. A pergunta, compartilhada dentro da sala de aula, é
apenas o ponto de partida no processo de investigação. E é aqui que o repertório do professor entra
em ação: estruturar um processo investigativo para se alcançar respostas. É no percurso investigativo
que a curiosidade deve ser cada vez mais estimulada para que leituras, experimentos, observações
sejam realizadas com vontade. Paulo Freire (Ele de novo, claro!) desenvolve a ideia de curiosidade
epistemológica
3 . Para ele a escola deve possibilitar que a curiosidade se torne cada vez mais
complexa, mais crítica, permitindo a passagem do senso comum para o conhecimento científico. É
uma curiosidade que ganha método e “por ques” mais complexos. E isso pode ser aprendido? Claro,
desde que haja em sala de aula situações em que a pergunta deixa de ser uma busca por respostas
imediatas e torna-se o ponto inicial da investigação.


Há mais de 100 anos John Dewey4 já conclamava os professores a estimular a curiosidade dos
alunos “A tarefa (do professor) é manter viva a centelha sagrada da surpresa e abanar a chama que já
brilha. Seu desafio é proteger o espírito da investigação, evitando que se torne sem graça pelo
excesso de excitação, amadeirado pela rotina, fossilizado pela instrução dogmática, ou dissipado pelo
exercício aleatório das coisas triviais.”


Respeitosamente hoje sou eu a lhe convidar, colega, a soprar a chama. O seu oxigênio é capaz
de gerar calor, desejo e aprendizagens. É capaz de gerar transformação.

1. GROSSNICKLE, E. M. Disentangling curiosity: dimensionality, definitions, and distinctions from interest in
educational context. Educational Psychology Review, v. 28, p. 23-60, 2016.
2. FREIRE, P; FAUNDEZ, A. Por uma Pedagogia da Pergunta. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.
3. FREIRE, P. À Sombra desta Mangueira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.
4. DEWEY, J. Natural resources in the training of thought. In: DEWEY, J. How we think. New York: D. C. Health & CO Publishers, 1910. p. 29-44.

COMPAIXÃO NA ESCOLA

 

Uma escola pelo afeto

Eduardo Pacifico

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Fundador e Diretor da ONG Gaia+. Ecólogo, mestre e doutor em Ciências Ambientais, criou e realizou projetos de habilidades socioemocionais com milhares de crianças e professores em todo o Brasil.

Valentin Conde

Coordenador de projetos no Instituto Sidarta, professor de práticas contemplativas para a infância, Pedagogo formado pela PUC-SP e mestre em ciências da religião com ênfase em estudos budistas pela Fo Guang University de Taiwan. Pós-graduado em Gestão Emocional nas Organizações pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein.

“O que você aprendeu hoje na escola?”, perguntam as famílias atentas, ávidas por saber o resultado da educação. Perguntamos nós, educadoras e educadores, ávidos por validar nosso trabalho. Perguntamos todos, com as melhores intenções, demonstrando interesse.


A pergunta pressupõe que seja possível repartir, quantificar e subdividir as experiências em aprendizagens e que, quem passa por isso — no caso a criança — olha para tudo o que viveu como o relojoeiro olha para as engrenagens de um relógio.


O corpo, separado do processo, precisa deixar a mente responder o que aprendeu na escola. Esse é o pensamento cartesiano que pensa a educação como fruto do uso da razão, da lógica. Já disse o pai dessa tradição: Penso, logo existo. Nesse dualismo, claramente a razão se sobrepõe à emoção, sendo uma característica mais “elevada”, tendo que “controlar” as emoções, o nosso “lado sombrio”. Descartes tinha seus motivos para separar corpo e mente lá no século XVII, mas será que nós temos motivos para continuar fazendo isso hoje?


O afã é tão grande com os resultados que esquecemos a pergunta que realmente importa: “O que você sentiu hoje na escola?” Afinal, sabemos que é pela via afetiva que a aprendizagem se realiza.


Pesquisas mostram que professores que conseguem ter uma relação afetiva e cooperativa com os alunos obtêm maior satisfação, bem-estar e os alunos têm mais interesse pelos estudos e maior sucesso na aprendizagem.
 

Porém, muitos de nós não fomos capacitados para promover essa educação afetiva. O tema é estigmatizado ou negligenciado na formação de professores no Brasil.Talvez deixemos de perguntar pois temos medo da resposta. Uma pesquisa da OCDE conduzida em 2018 mostra que 23% dos estudantes brasileiros se sentem sozinhos na escola e 13% se sentem tristes o tempo todo.
 

O que esperamos que estudantes aprendam sozinhos e tristes numa escola que deseja resultados em detrimento de emoções?
 

Vamos recorrer ao nosso patrono da Educação no Brasil, Paulo Freire, em seu livro Professora, sim; tia, não – cartas a quem ousa ensinar de 1997:
 

“É preciso ousar, no sentido pleno desta palavra, para falar em amor sem temer ser chamado de piegas, de meloso, de a-científico, senão de anti-científico. É preciso ousar para dizer, cientificamente e não bla-bla-blantemente, que estudamos, aprendemos, ensinamos, conhecemos com o nosso corpo inteiro. Com os sentimentos, com as emoções, com os desejos, com os medos, com as dúvidas, com a paixão e também com a razão crítica. Jamais com esta apenas. É preciso ousar para jamais dicotomizar o cognitivo do emocional”.
 

Numa era em que a ciência tem nos mostrado que emoção e razão são componentes interdependentes na educação, já está na hora de mudar essa frase. Que tal “Sinto, logo existo.”?
 

Gostaríamos de convidar você para vivenciar a sala de aula (seja ela física ou virtual) de forma mais aberta aos processos afetivos e para isso, nos próximos artigos, vamos falar sobre a construção de habilidades que podem nos ajudar nesse sentido.
 

Bora com a gente?

 

Sugestão de leitura para aprofundamento do tema:
 

Artigo “A afetividade na relação educativa” de Marinalva Lopes Ribeiro, disponível em https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-166X2010000300012&script=sci_arttext

 

Artigo “Afetividade nas práticas pedagógicas” de Sérgio Antônio da Silva Leite, disponível em https://www.redalyc.org/pdf/5137/513751440006.pdf

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O que vem por aí

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06 de abril

Contação de História

13 de abril

Educação emocional na escola